domingo, 25 de janeiro de 2026

Not today



Há uma depressão instalada. 

No céu e em mim.


Chove há dias. Não é a chuva violenta que limpa, é a outra. Persistente. Fria. Daquela que se infiltra devagar e acaba por se alojar nos ossos. O corpo reage antes do pensamento. Endurece. Defende-se.


No palácio, mantenho-me recolhida. O semblante fechado, negro, tenso. Não é um aviso. É constatação. Não quero presenças agora. Há momentos em que até a proximidade fere. Este é um deles. Preciso de silêncio para não me perder em palavras inúteis.


As salas estão escuras. O frio percorre os corredores como se conhecesse o caminho. As paredes antigas reconhecem este estado. Já o acolheram antes. Sabem que não é fraqueza. É contenção.


Lá fora, os aldeões sentem-no. Não lhes foi dito nada, mas sabem. Há um cuidado novo nos gestos, uma reserva no olhar. Falam mais baixo. Evitam aproximar-se. Quando o centro se fecha, a periferia pressente. Não por medo declarado, mas por uma intuição antiga, herdada.


A trovoada cai na lezíria. Ainda distante. O ar pesa. Há electricidade suspensa. Tudo indica que algo se prepara, mesmo sem data marcada. A terra adivinha estados de espírito. Ajusta-se antes da queda.


Dentro de mim ficou uma mágoa organizada. Não caótica. Uma revolta fria, metódica. Passei a confiar menos em estranhos. A desconfiar mais dos conhecidos. A familiaridade deixou de ser abrigo. Tornou-se hipótese.


Sinto isto como um retrocesso na minha evolução. Trouxe à superfície uma parte minha que eu julgava encerrada. Não a nego. Não a justifico. Reconheço-a. Há em mim uma necessidade de reposição da verdade. Enquanto o desequilíbrio permanece, não há descanso possível. Quando a ordem se recompõe, afasto-me. Não por vitória. Por cessação.


A chuva continua.

O frio mantém-se.


Sei que esta estação não é definitiva, mas também sei que não passa depressa. Há períodos em que a única tarefa é permanecer inteira. Mesmo rígida. Mesmo escura.


O degelo virá depois.

Hoje, não.


terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Becoming Resolution

 


Respiro. Uma vez. Depois outra.


Aproveitei o intervalo das chuvas, o sol brilhante e o frio gélido desta manhã e parti rumo à minha serra, com um saco de pano cheio de nozes. Sorrio na antecipação deste pequeno ritual, o de alimentar os meus esquilos, vermelhos e castanhos. Há variações de cor, como há variações de silêncio. Eu reparo nelas.


Tenho sempre períodos de introspecção depois de arrumar os meus assuntos nas devidas gavetas. Ou de empurrar, sem grande delicadeza, alguns esqueletos de volta para o armário empoeirado do sótão das memórias. É uma espécie de catarse organizada, se isso existir. Um fingimento de ordem interna.


O corpo acompanha. Ou pelo menos tenta. Caminho mais depressa do que devia, mais longe do que planeei. Há um entusiasmo disfarçado de disciplina. Um esforço que não é desportivo, é emocional. Uma purga silenciosa, repetitiva, ritmada pelo impacto dos pés no chão.


Só mais tarde percebo o estrago. As canelas a arder por dentro, como se o osso tivesse memória. O corpo cobra o que a mente decidiu gastar sem autorização.


Chego a um dos fortes de defesa do passado, já envolto e camuflado pela vegetação. Sento-me junto a uma das saídas de pedra para canhões de antigamente, sentindo o frio da manhã atravessar a roupa e gelar os dedos, e o cheiro da terra molhada misturar-se com o aroma seco da pedra antiga. Sorrindo e em silêncio, bato uma das nozes na superfície rugosa, ritmando o som com a respiração. É assim que eles sabem se estou apenas de passagem introspectiva ou se venho ao seu encontro.


Timidamente, surge o mais irrequieto, de pêlo vermelho intenso. Pequeno e traquina, aproxima-se e rouba-me a noz, disparando para o topo da árvore mais próxima. Começa o ritmo tímido, mas constante: uma noz aqui, outra ali, enquanto o vento agita as folhas, os meus músculos relaxam e a mente se esvazia. Sinto a textura da pedra sob as palmas, o frio que ainda persiste na pele, a leve tensão que lentamente se dissolve no gesto repetido. Cada noz oferecida é um pequeno acto de cuidado, de presença, de partilha silenciosa.


E, ainda assim, regresso a casa. Mesmo com a purga, mesmo com a descarga, mesmo com o corpo a queixar-se do esforço. É assim que encontro o ponto de equilíbrio entre a mente que precisa de soltar e o corpo que precisa de estar.


Respiro. Uma vez. Depois outra.

E fico.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Tides

 


Estou de regresso ao meu palácio. Caminho pelas ruas da aldeia ainda marcadas pela ressaca da passagem do ano. Restos de folia espalhados pelo chão como confettis cansados, testemunhas de excessos que não me pertencem. O sol espreita tímido por detrás das nuvens, como se pedisse licença para existir. Sempre gostei dessa contenção.


Sigo adiante. O ar fresco da manhã envolve-me e endireita-me por dentro. Foi sempre um bom conselheiro, este frio leve que acorda o corpo sem o ferir. Há decisões que só se tomam assim, a andar, sem plateia, sem urgência.


No cais, reconheço os sinais deixados pelas marés altas da tempestade. A água subiu mais do que devia, reclamou território, deixou marcas irregulares na pedra. Há pessoas que passam por nós do mesmo modo. A igreja observa tudo do cume do monte, imóvel, antiga, com a serenidade de quem já viu o suficiente para saber que nada fica intacto, mesmo aquilo que juramos eterno.


O vento sopra com mais intensidade junto ao rio. Entra-me pelo casaco, atravessa-me. Ainda assim, caminho com uma cadência certa, rápida, quase automática. Conheço este percurso de cor. Poderia fazê-lo de olhos fechados. Talvez já o esteja a fazer.


E voltas a mim. Não inteiro. Nunca inteiro. Vens em fragmentos dispersos de memória. Um sorriso que me apanha desprevenida. Uma gargalhada fora de tempo. Provocações suaves que escondiam fricções inevitáveis entre duas vontades que nunca aprenderam a coincidir.


Não te chamo. Não te afasto. Deixo-te passar por mim como o vento passa pelo rio, sem pedir licença, sem se deter. Aprendi que há presenças que não querem permanência, apenas travessia.


Continuo a andar. O palácio espera-me. Não é feito de pedra nem de grandeza. É feito de silêncio, de gestos pequenos, de um lugar onde posso pousar, sem explicações. Voltar a casa é regressar a mim. Avançar apesar de tudo o que retorna dentro de nós. 


E escolher, ainda assim, ficar.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Unbound


Leio a tua resposta sem a reler. Há coisas que o corpo entende antes da mente. Bloqueio o ecrã, guardo o telemóvel no bolso do sobretudo e fecho a porta atrás de mim. O som seco do trinco ecoa mais do que devia. É o fim de qualquer hesitação.


Entro no carro e ligo o motor. A chuva cai densa, desenhada em fios oblíquos no pára-brisas. Ajusto o espelho, prendo o cinto e deixo-me avançar. A estrada recebe-me sem perguntas.


Os primeiros quilómetros passam em silêncio. O asfalto húmido reflecte as luzes raras, alongando-as como se o tempo tivesse decidido esticar-se também. Cruzo vilas adormecidas, sem sinais de vida, fachadas fechadas sobre si mesmas. Há qualquer coisa de cúmplice nesse recolhimento geral.


A estrada começa a mudar de cadência. A luz torna-se mais baça, o ar mais denso e a paisagem vai perdendo a abertura ampla do litoral. Há uma curva mais longa, uma inclinação subtil e o horizonte deixa de ser plano. Ainda distante, quase discreta, a minha serra insinua-se na paisagem. Não se impõe. Revela-se.


Sei que estou a menos de uma hora. O corpo reconhece essa proximidade antes de qualquer cálculo. A chuva continua a cair, persistente, como se tivesse decidido acompanhar-me até ao fim.


À medida que me aproximo, a serra ganha contorno, densidade, peso. O verde adensa-se e o cume perde-se num nevoeiro cerrado, espesso, antigo. Há ali uma gravidade silenciosa que não pede pressa. Reconheço-a sem esforço. Há lugares que não exigem explicações.


Quando chego, estaciono sem pressa. O motor cala-se, mas a chuva permanece. Abro a porta e saio do carro, mesmo assim. O frio húmido toca-me o rosto, acorda-me. Respiro fundo e entro na floresta.


Ali dentro, o mundo estreita-se. Já não há cidades nem destinos, nem mensagens por decifrar. Apenas a chuva a cair, contínua, inteira. As gotas encontram a terra sem gargalhadas musicais, sem ornamento, sem pressa. Só o som grave e húmido do que cai e se infiltra.


Caminho alguns passos, deixando que a água me atravesse o cabelo, o sobretudo, os pensamentos. Não procuro abrigo. Há momentos em que é preciso ficar exactamente onde se está.


Fico ali, entre as árvores, sem medir o tempo. A chuva cai sobre mim com a mesma indiferença com que se assenta na terra, e isso basta. A minha serra não me exige explicações, não remói o passado, não me acusa.


O nevoeiro move-se devagar entre os troncos, diluindo contornos, apagando excessos. Sinto os pés firmes no chão húmido, o frio a instalar-se com delicadeza, quase como um aviso para regressar ao corpo.


Não penso em ti. Ou talvez pense, mas já sem forma, sem urgência, sem palavras. Como um eco distante que deixou de procurar origem.


Respiro. Uma vez. Depois outra.

E fico.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

The pause

 


Acordei envolta na penumbra da suite, ainda na madrugada recente. Estou longe do meu palácio e, embora a tempestade se espalhe por toda a costa nacional, aqui, tão perto do oceano, torna-se mais ruidosa, mais impressionante. Estico o corpo devagar, ainda a sentir no peito o rasto da tua presença. Ocupaste-me a noite inteira. Deixaste-me um amanhecer acelerado, pulsante, inquieto.


Tenho andado a rodear-te em pensamento, como quem caminha à volta de uma porta sem saber se a deve abrir. Sim? Não? Avanço? Fico?

Queria sinais teus, alguma clareza, qualquer gesto que me orientasse, mas nada me transmites. Em vez disso, pareces castigar-me com a ausência, com o silêncio. Suspiro.


Num impulso, visto o primeiro vestido que encontro, calço as botas, enrolo o cachecol ao pescoço e desço as escadas com a pressa de quem não quer dar tempo ao medo. Rímel e eyeliner bastam. A chave na mão pesa mais do que devia.


À entrada, pego no sobretudo e detenho-me diante do espelho. Há sempre um instante em que a nossa própria imagem parece pedir explicações.


Respiro fundo e envio-te a última mensagem.

“Diz-me apenas se é para ir.”


O tic-tac ensurdecedor do relógio prolonga-se. Cada segundo dilata-se, quase cruel, até que a tua resposta chega.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Renewal

 


Tempos idos. Junto aos tons âmbar e carmesim do calor que se derrama da lareira crepitante, recordo outros tempos e outro calor; o primaveril, subtil e húmido, aquele que se sente na pele e nas flores delicadas que despontam na pradaria, no canto fervoroso e entusiasta dos pássaros que anunciam a chegada do verão, no reconhecimento silencioso dos trilhos da minha serra, agora despida do semblante cinzento, pesado e obtuso do inverno.


Tudo é cíclico, não é? Modas efémeras, tendências fugidias, guerras dos poderosos e consequências inexoráveis para os mais frágeis. Junto aos tons quentes da lareira, recordo outros tempos e outro calor, aqueles em que me acompanhavas, em que sentias trilhos que nunca pisaste, onde o calor húmido da manhã se colava à pele, e não havia censura às palavras, tudo era visceral, cru e genuíno.


Sabes disso. Acredito que o viveste e sentiste como eu. Assim como acredito que a minha súbita fuga perante uma mudança te tenha atropelado, sem tempo para processares o acontecido. Junto aos tons cálidos e profundos da lareira, recordo outros tempos e outro calor: o da mágoa que me consumiu e que não soube exprimir, o da dúvida que me assolou e que não ousava dissipar por medo da resposta.


E agora sinto a calma lenta e o sossego silencioso que procuro há tantos meses, a paz que encerra a dúvida e dissipa o medo da resposta. Sinto o espaço para respirar, para existir sem pressa e, talvez, para a abertura de um novo capítulo, mais sereno e ameno, onde não há gelo cortante, vento impetuoso ou chuva miudinha, mas apenas a quietude necessária para que tudo floresça de novo. Tempos (bem) vindos.

domingo, 21 de dezembro de 2025

Threshold

 


Em tempos relembrei a filha perdida e livre que fui, naquelas tardes infindáveis que se convertiam em noites quentes de verão.

Os invernos não eram muito diferentes, nem o são agora, porque há épocas em que o frio apenas muda de forma. Em tempo festivo, quando as famílias se reúnem por hábito, expectativa ou obrigação, reencontro-me com aquelas que me são tudo. Petra, altiva, de pele marmórea e cabelos negros como a noite cerrada. Eva, eternamente jovial, de gargalhada fácil e caracóis dourados que captam a luz como se lhe pertencessem. São duas variantes de mim, Petra a racional, de crueza visceral e olhar afiado, Eva a emotiva, ingénua na forma como se entrega. A minha loucura nasce precisamente entre ambas, nessa tentativa insistente de equilibrar os pratos da balança, procurando, em vão, alguma forma de perfeição nas relações humanas.

A tradição, porém,  já não habita uma casa velha de papel de parede rasgado e tinta estalada. Agora, reúne-se numa sala ampla de paredes antigas, onde a lareira acesa projecta sombras vivas e o cheiro da madeira queimada se mistura com o doce especiado do hidromel. Abdicamos do conforto previsível do sofá, estendemos mantas espessas diante do fogo e sentamo-nos no chão, próximas o suficiente para partilhar calor e estórias comuns, enquanto lá fora a serra contrasta com o seu silêncio profundo e se cobre de um branco absoluto.

As gargalhadas elevam-se, atravessam as muralhas de pedra e deslizam encosta abaixo, cortando o ar frio até te alcançarem, a ti, que me julgavas perdida no tempo, cuidadosamente guardada na gaveta das memórias intemporais.


Pressinto-te antes de te ver. Invades-me a mente de forma súbita e desordenada, pequenos episódios em flash atravessam-me o olhar; gargalhadas soltas, toques demorados, mãos entrelaçadas, olhos sorridentes, silêncios cúmplices, abraços-cola, gemidos suspensos a antecipar o êxtase. Respiro fundo, tentando regressar à realidade, e abano a cabeça como quem afasta um pensamento perigoso.

Eva observa por cima do meu ombro, cúmplice, quase triunfante. Petra já não ocupa o seu lugar. Quando me viro, vejo-a a sacudir a neve do teu casaco, ainda húmido do frio da serra, e, logo depois, reencontro os teus olhos sorridentes, quentes em contraste com a noite lá fora.

Compreendo então que a tradição do agora não se constrói sobre promessas longas nem sobre a ilusão da permanência, mas sobre a intensidade da presença. Sentares-te no chão connosco, partilhares o calor da lareira, o peso das mantas, o sabor adocicado do hidromel, enquanto a neve continua a cair sobre o vale, indiferente.


Não prometes ficar. Eu não te peço que fiques. Permanecemos apenas o tempo exacto que o instante nos permite, como filhos perdidos e livres numa noite aconchegante de inverno.



quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Wonderland


(Eu) sou a Alice.

Sou feita de intensidade indomada e lucidez a mais. Penso demais, sinto antes do tempo, antecipo a dor como quem monta guarda à porta da perda. Não espero que me deixem. Quando começo a perceber o silêncio, já estou a fechar a porta por dentro. Chamo-lhe autonomia. No fundo, é cautela com boa dicção.


Sou lúcida ao ponto de me doer. Vejo padrões, leio entrelinhas, detecto microfugas emocionais como quem fareja incêndios antes do fumo. Isso não me salva. Só me torna consciente enquanto ardo.


Tenho paixão em excesso e recipientes a menos. Quando gosto, não gosto com prudência. Gosto com os dentes, com o peito aberto, com a urgência de quem sabe que tudo pode acabar de repente. E quase sempre acaba. Não porque não fosse real, mas porque a minha fome assusta quem só vinha provar.


Carrego uma loucura funcional. Trabalho, crio, cuido, penso, decido. Por fora, sou organizada. Por dentro, há um carnaval silencioso. Uma mente que não desliga, emoções que não pedem licença, uma criança que percebeu cedo que amar exige coragem e que depender implica risco.


Sou independente. Apesar de tudo, não necessito de ninguém. Quando fecho a porta, por mais mágoa que sinta, não é pela ausência do outro. É pela rara constatação de que não há, no mundo, alguém com o mesmo grau de loucura capaz de me compreender verdadeiramente.


Habito um palácio erguido na serra. Não é feito de ouro nem de aplausos, mas de silêncio, altura e ar rarefeito. Para lá chegar é preciso perder-se. E eu perco-me muitas vezes. Na serra, encontro-me. No isolamento, organizo o caos. O mundo fica distante, pequeno, quase irrelevante.


Os aldeões observam-me de baixo, sempre com um misto de espanto e receio. Não sabem se desço para ficar ou se volto a desaparecer entre as árvores. Não me pertencem e eu não lhes pertenço. Sou a figura que passa e deixa rasto, nunca permanência.


Os meus cabelos dourados soltos ao vento são tão indomáveis quanto eu. Não obedecem, não assentam, não pedem permissão. A minha pele é cálida como mármore frio. Aproxima-se quem quer, mas poucos permanecem. O toque raramente alcança o que está por baixo.


Mesmo acompanhada, conheço a solitude da loucura. Há quem veja o invólucro, quem admire a forma, quem se encante com a superfície. Poucos suportam a profundidade. Poucos escutam o eco.


Sou cansada. Mas não vencida. Frágil, mas atenta. Capaz de amar com uma profundidade que mete medo, inclusive a mim.


E continuo aqui.
Mesmo com tudo isto.
Talvez precisamente por tudo isto.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Lingering

 


Luto e saudade.


Não como fins, mas como movimentos lentos do pensamento quando, sem aviso, me atravessas.

Pensei em escrever-te. Não por urgência. Por reconhecimento. Ainda assim, contive o gesto. Há silêncios que não são ausência, são intervalo.

Do que foi intenso ao que se tornou atento, do descompasso à escuta, houve um percurso que não se desfez. Apenas mudou de forma. E talvez por isso permaneças. Não como falta, mas como linha ténue que nunca se apaga por completo.

Em certos lugares, a tua voz regressa sem esforço, quase intacta. No quotidiano, a memória assenta com uma delicadeza pesada. Não lhe chamo luto, nem lhe nego a saudade. É outra coisa. Um estado intermédio, onde nada está fechado.

Pergunto-me, às vezes, se ainda me encontras nesse espaço indefinido entre o que se viveu e o que não chegou a acontecer. Se continuo legível, mesmo quando não escrevo.


Talvez sim.

Talvez ainda.


Luto e saudade.


terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Thaw


Há criaturas humanas dotadas de uma habilidade rara e quase alquímica: a de dissolver armaduras interiores forjadas em aço temperado pela sobrevivência. Por mais glacial que eu me torne, hermética como uma noite de inverno em fúria marítima, existe sempre alguém capaz de me desarmar com a simplicidade devastadora de um primeiro raio de sol após a tempestade.

Desperto com a claridade inaugural da madrugada. A luz ainda tímida infiltra-se como um segredo mal guardado. A neblina permanece suspensa no topo da serra, densa e silenciosa, enquanto as copas das árvores se revelam aos poucos, imobilizadas numa composição pictórica de outro século, como se um pintor melancólico tivesse escolhido óleos de paleta fria para retratar este Outono tardio e gélido. Do lado oposto, irrompe o astro-rei, impaciente e soberano, derramando uma luz dourada, quase insolente, que rasga a névoa sem pedir licença, aquecendo o ar com promessas de permanência e acordando a paisagem de um torpor antigo.

Sinto a pele eriçar-se apenas pelo frio. Envolvo-me numa túnica de malha espessa, leitosa, quase lunar, numa tentativa vã de reter o calor. Ainda assim, desço as escadas de pernas nuas e pés descalços, entregando-me com prazer à frieza implacável do mármore, cúmplice antiga das minhas manhãs.

Esperas-me na cozinha. Empunhas uma caneca fumegante como quem segura um pequeno ritual doméstico. O líquido negro exala um aroma denso, profundo, quase ancestral. Sorrio-te. Sabes que as manhãs me roubam as palavras e devolvem-me apenas gestos. Aproximo-me em silêncio, retiro-te as canecas das mãos com a naturalidade de quem já pertence, e deixo-me cair no teu abraço. Os meus lábios encontram os teus num beijo lento, ainda impregnado de sono e promessas tácitas.

Ficas ali, imóvel, como se compreendesses que aquele instante não deve ser apressado. As tuas mãos ancoram-me à realidade enquanto o mundo, lá fora, continua a acordar. O calor do teu corpo infiltra-se por baixo da lã grossa, dissolvendo o frio, desfazendo a distância, silenciando o ruído interior. É nesse espaço suspenso, entre o primeiro café e a primeira palavra, que a minha armadura cede sem resistência, rendida não à força, mas à presença.

Há criaturas humanas dotadas de uma habilidade rara e quase alquímica: a de dissolver armaduras interiores forjadas em aço temperado pela sobrevivência. Por mais glacial que eu me torne, existe sempre alguém capaz de me desarmar com a inevitabilidade luminosa de um sol que regressa.


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