sábado, 3 de janeiro de 2026

Unbound


Leio a tua resposta sem a reler. Há coisas que o corpo entende antes da mente. Bloqueio o ecrã, guardo o telemóvel no bolso do sobretudo e fecho a porta atrás de mim. O som seco do trinco ecoa mais do que devia. É o fim de qualquer hesitação.


Entro no carro e ligo o motor. A chuva cai densa, desenhada em fios oblíquos no pára-brisas. Ajusto o espelho, prendo o cinto e deixo-me avançar. A estrada recebe-me sem perguntas.


Os primeiros quilómetros passam em silêncio. O asfalto húmido reflecte as luzes raras, alongando-as como se o tempo tivesse decidido esticar-se também. Cruzo vilas adormecidas, sem sinais de vida, fachadas fechadas sobre si mesmas. Há qualquer coisa de cúmplice nesse recolhimento geral.


A estrada começa a mudar de cadência. A luz torna-se mais baça, o ar mais denso e a paisagem vai perdendo a abertura ampla do litoral. Há uma curva mais longa, uma inclinação subtil e o horizonte deixa de ser plano. Ainda distante, quase discreta, a minha serra insinua-se na paisagem. Não se impõe. Revela-se.


Sei que estou a menos de uma hora. O corpo reconhece essa proximidade antes de qualquer cálculo. A chuva continua a cair, persistente, como se tivesse decidido acompanhar-me até ao fim.


À medida que me aproximo, a serra ganha contorno, densidade, peso. O verde adensa-se e o cume perde-se num nevoeiro cerrado, espesso, antigo. Há ali uma gravidade silenciosa que não pede pressa. Reconheço-a sem esforço. Há lugares que não exigem explicações.


Quando chego, estaciono sem pressa. O motor cala-se, mas a chuva permanece. Abro a porta e saio do carro, mesmo assim. O frio húmido toca-me o rosto, acorda-me. Respiro fundo e entro na floresta.


Ali dentro, o mundo estreita-se. Já não há cidades nem destinos, nem mensagens por decifrar. Apenas a chuva a cair, contínua, inteira. As gotas encontram a terra sem gargalhadas musicais, sem ornamento, sem pressa. Só o som grave e húmido do que cai e se infiltra.


Caminho alguns passos, deixando que a água me atravesse o cabelo, o sobretudo, os pensamentos. Não procuro abrigo. Há momentos em que é preciso ficar exactamente onde se está.


Fico ali, entre as árvores, sem medir o tempo. A chuva cai sobre mim com a mesma indiferença com que se assenta na terra, e isso basta. A minha serra não me exige explicações, não remói o passado, não me acusa.


O nevoeiro move-se devagar entre os troncos, diluindo contornos, apagando excessos. Sinto os pés firmes no chão húmido, o frio a instalar-se com delicadeza, quase como um aviso para regressar ao corpo.


Não penso em ti. Ou talvez pense, mas já sem forma, sem urgência, sem palavras. Como um eco distante que deixou de procurar origem.


Respiro. Uma vez. Depois outra.

E fico.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

The pause

 


Acordei envolta na penumbra da suite, ainda na madrugada recente. Estou longe do meu palácio e, embora a tempestade se espalhe por toda a costa nacional, aqui, tão perto do oceano, torna-se mais ruidosa, mais impressionante. Estico o corpo devagar, ainda a sentir no peito o rasto da tua presença. Ocupaste-me a noite inteira. Deixaste-me um amanhecer acelerado, pulsante, inquieto.


Tenho andado a rodear-te em pensamento, como quem caminha à volta de uma porta sem saber se a deve abrir. Sim? Não? Avanço? Fico?

Queria sinais teus, alguma clareza, qualquer gesto que me orientasse, mas nada me transmites. Em vez disso, pareces castigar-me com a ausência, com o silêncio. Suspiro.


Num impulso, visto o primeiro vestido que encontro, calço as botas, enrolo o cachecol ao pescoço e desço as escadas com a pressa de quem não quer dar tempo ao medo. Rímel e eyeliner bastam. A chave na mão pesa mais do que devia.


À entrada, pego no sobretudo e detenho-me diante do espelho. Há sempre um instante em que a nossa própria imagem parece pedir explicações.


Respiro fundo e envio-te a última mensagem.

“Diz-me apenas se é para ir.”


O tic-tac ensurdecedor do relógio prolonga-se. Cada segundo dilata-se, quase cruel, até que a tua resposta chega.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Renewal

 


Tempos idos. Junto aos tons âmbar e carmesim do calor que se derrama da lareira crepitante, recordo outros tempos e outro calor; o primaveril, subtil e húmido, aquele que se sente na pele e nas flores delicadas que despontam na pradaria, no canto fervoroso e entusiasta dos pássaros que anunciam a chegada do verão, no reconhecimento silencioso dos trilhos da minha serra, agora despida do semblante cinzento, pesado e obtuso do inverno.


Tudo é cíclico, não é? Modas efémeras, tendências fugidias, guerras dos poderosos e consequências inexoráveis para os mais frágeis. Junto aos tons quentes da lareira, recordo outros tempos e outro calor, aqueles em que me acompanhavas, em que sentias trilhos que nunca pisaste, onde o calor húmido da manhã se colava à pele, e não havia censura às palavras, tudo era visceral, cru e genuíno.


Sabes disso. Acredito que o viveste e sentiste como eu. Assim como acredito que a minha súbita fuga perante uma mudança te tenha atropelado, sem tempo para processares o acontecido. Junto aos tons cálidos e profundos da lareira, recordo outros tempos e outro calor: o da mágoa que me consumiu e que não soube exprimir, o da dúvida que me assolou e que não ousava dissipar por medo da resposta.


E agora sinto a calma lenta e o sossego silencioso que procuro há tantos meses, a paz que encerra a dúvida e dissipa o medo da resposta. Sinto o espaço para respirar, para existir sem pressa e, talvez, para a abertura de um novo capítulo, mais sereno e ameno, onde não há gelo cortante, vento impetuoso ou chuva miudinha, mas apenas a quietude necessária para que tudo floresça de novo. Tempos (bem) vindos.

domingo, 21 de dezembro de 2025

Threshold

 


Em tempos relembrei a filha perdida e livre que fui, naquelas tardes infindáveis que se convertiam em noites quentes de verão.

Os invernos não eram muito diferentes, nem o são agora, porque há épocas em que o frio apenas muda de forma. Em tempo festivo, quando as famílias se reúnem por hábito, expectativa ou obrigação, reencontro-me com aquelas que me são tudo. Petra, altiva, de pele marmórea e cabelos negros como a noite cerrada. Eva, eternamente jovial, de gargalhada fácil e caracóis dourados que captam a luz como se lhe pertencessem. São duas variantes de mim, Petra a racional, de crueza visceral e olhar afiado, Eva a emotiva, ingénua na forma como se entrega. A minha loucura nasce precisamente entre ambas, nessa tentativa insistente de equilibrar os pratos da balança, procurando, em vão, alguma forma de perfeição nas relações humanas.

A tradição, porém,  já não habita uma casa velha de papel de parede rasgado e tinta estalada. Agora, reúne-se numa sala ampla de paredes antigas, onde a lareira acesa projecta sombras vivas e o cheiro da madeira queimada se mistura com o doce especiado do hidromel. Abdicamos do conforto previsível do sofá, estendemos mantas espessas diante do fogo e sentamo-nos no chão, próximas o suficiente para partilhar calor e estórias comuns, enquanto lá fora a serra contrasta com o seu silêncio profundo e se cobre de um branco absoluto.

As gargalhadas elevam-se, atravessam as muralhas de pedra e deslizam encosta abaixo, cortando o ar frio até te alcançarem, a ti, que me julgavas perdida no tempo, cuidadosamente guardada na gaveta das memórias intemporais.


Pressinto-te antes de te ver. Invades-me a mente de forma súbita e desordenada, pequenos episódios em flash atravessam-me o olhar; gargalhadas soltas, toques demorados, mãos entrelaçadas, olhos sorridentes, silêncios cúmplices, abraços-cola, gemidos suspensos a antecipar o êxtase. Respiro fundo, tentando regressar à realidade, e abano a cabeça como quem afasta um pensamento perigoso.

Eva observa por cima do meu ombro, cúmplice, quase triunfante. Petra já não ocupa o seu lugar. Quando me viro, vejo-a a sacudir a neve do teu casaco, ainda húmido do frio da serra, e, logo depois, reencontro os teus olhos sorridentes, quentes em contraste com a noite lá fora.

Compreendo então que a tradição do agora não se constrói sobre promessas longas nem sobre a ilusão da permanência, mas sobre a intensidade da presença. Sentares-te no chão connosco, partilhares o calor da lareira, o peso das mantas, o sabor adocicado do hidromel, enquanto a neve continua a cair sobre o vale, indiferente.


Não prometes ficar. Eu não te peço que fiques. Permanecemos apenas o tempo exacto que o instante nos permite, como filhos perdidos e livres numa noite aconchegante de inverno.



quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Wonderland


(Eu) sou a Alice.

Sou feita de intensidade indomada e lucidez a mais. Penso demais, sinto antes do tempo, antecipo a dor como quem monta guarda à porta da perda. Não espero que me deixem. Quando começo a perceber o silêncio, já estou a fechar a porta por dentro. Chamo-lhe autonomia. No fundo, é cautela com boa dicção.


Sou lúcida ao ponto de me doer. Vejo padrões, leio entrelinhas, detecto microfugas emocionais como quem fareja incêndios antes do fumo. Isso não me salva. Só me torna consciente enquanto ardo.


Tenho paixão em excesso e recipientes a menos. Quando gosto, não gosto com prudência. Gosto com os dentes, com o peito aberto, com a urgência de quem sabe que tudo pode acabar de repente. E quase sempre acaba. Não porque não fosse real, mas porque a minha fome assusta quem só vinha provar.


Carrego uma loucura funcional. Trabalho, crio, cuido, penso, decido. Por fora, sou organizada. Por dentro, há um carnaval silencioso. Uma mente que não desliga, emoções que não pedem licença, uma criança que percebeu cedo que amar exige coragem e que depender implica risco.


Sou independente. Apesar de tudo, não necessito de ninguém. Quando fecho a porta, por mais mágoa que sinta, não é pela ausência do outro. É pela rara constatação de que não há, no mundo, alguém com o mesmo grau de loucura capaz de me compreender verdadeiramente.


Habito um palácio erguido na serra. Não é feito de ouro nem de aplausos, mas de silêncio, altura e ar rarefeito. Para lá chegar é preciso perder-se. E eu perco-me muitas vezes. Na serra, encontro-me. No isolamento, organizo o caos. O mundo fica distante, pequeno, quase irrelevante.


Os aldeões observam-me de baixo, sempre com um misto de espanto e receio. Não sabem se desço para ficar ou se volto a desaparecer entre as árvores. Não me pertencem e eu não lhes pertenço. Sou a figura que passa e deixa rasto, nunca permanência.


Os meus cabelos dourados soltos ao vento são tão indomáveis quanto eu. Não obedecem, não assentam, não pedem permissão. A minha pele é cálida como mármore frio. Aproxima-se quem quer, mas poucos permanecem. O toque raramente alcança o que está por baixo.


Mesmo acompanhada, conheço a solitude da loucura. Há quem veja o invólucro, quem admire a forma, quem se encante com a superfície. Poucos suportam a profundidade. Poucos escutam o eco.


Sou cansada. Mas não vencida. Frágil, mas atenta. Capaz de amar com uma profundidade que mete medo, inclusive a mim.


E continuo aqui.
Mesmo com tudo isto.
Talvez precisamente por tudo isto.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Lingering

 


Luto e saudade.


Não como fins, mas como movimentos lentos do pensamento quando, sem aviso, me atravessas.

Pensei em escrever-te. Não por urgência. Por reconhecimento. Ainda assim, contive o gesto. Há silêncios que não são ausência, são intervalo.

Do que foi intenso ao que se tornou atento, do descompasso à escuta, houve um percurso que não se desfez. Apenas mudou de forma. E talvez por isso permaneças. Não como falta, mas como linha ténue que nunca se apaga por completo.

Em certos lugares, a tua voz regressa sem esforço, quase intacta. No quotidiano, a memória assenta com uma delicadeza pesada. Não lhe chamo luto, nem lhe nego a saudade. É outra coisa. Um estado intermédio, onde nada está fechado.

Pergunto-me, às vezes, se ainda me encontras nesse espaço indefinido entre o que se viveu e o que não chegou a acontecer. Se continuo legível, mesmo quando não escrevo.


Talvez sim.

Talvez ainda.


Luto e saudade.


terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Thaw


Há criaturas humanas dotadas de uma habilidade rara e quase alquímica: a de dissolver armaduras interiores forjadas em aço temperado pela sobrevivência. Por mais glacial que eu me torne, hermética como uma noite de inverno em fúria marítima, existe sempre alguém capaz de me desarmar com a simplicidade devastadora de um primeiro raio de sol após a tempestade.

Desperto com a claridade inaugural da madrugada. A luz ainda tímida infiltra-se como um segredo mal guardado. A neblina permanece suspensa no topo da serra, densa e silenciosa, enquanto as copas das árvores se revelam aos poucos, imobilizadas numa composição pictórica de outro século, como se um pintor melancólico tivesse escolhido óleos de paleta fria para retratar este Outono tardio e gélido. Do lado oposto, irrompe o astro-rei, impaciente e soberano, derramando uma luz dourada, quase insolente, que rasga a névoa sem pedir licença, aquecendo o ar com promessas de permanência e acordando a paisagem de um torpor antigo.

Sinto a pele eriçar-se apenas pelo frio. Envolvo-me numa túnica de malha espessa, leitosa, quase lunar, numa tentativa vã de reter o calor. Ainda assim, desço as escadas de pernas nuas e pés descalços, entregando-me com prazer à frieza implacável do mármore, cúmplice antiga das minhas manhãs.

Esperas-me na cozinha. Empunhas uma caneca fumegante como quem segura um pequeno ritual doméstico. O líquido negro exala um aroma denso, profundo, quase ancestral. Sorrio-te. Sabes que as manhãs me roubam as palavras e devolvem-me apenas gestos. Aproximo-me em silêncio, retiro-te as canecas das mãos com a naturalidade de quem já pertence, e deixo-me cair no teu abraço. Os meus lábios encontram os teus num beijo lento, ainda impregnado de sono e promessas tácitas.

Ficas ali, imóvel, como se compreendesses que aquele instante não deve ser apressado. As tuas mãos ancoram-me à realidade enquanto o mundo, lá fora, continua a acordar. O calor do teu corpo infiltra-se por baixo da lã grossa, dissolvendo o frio, desfazendo a distância, silenciando o ruído interior. É nesse espaço suspenso, entre o primeiro café e a primeira palavra, que a minha armadura cede sem resistência, rendida não à força, mas à presença.

Há criaturas humanas dotadas de uma habilidade rara e quase alquímica: a de dissolver armaduras interiores forjadas em aço temperado pela sobrevivência. Por mais glacial que eu me torne, existe sempre alguém capaz de me desarmar com a inevitabilidade luminosa de um sol que regressa.


quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Aftermath

 


Há pessoas que chegam como tempestades ensaiadas, com aquela luz enganadora que faz acreditar que finalmente encontramos alguém que nos lê por dentro. Tu eras isso: um clarão aparente, inteligente, ruidoso na medida que seduzia, frágil na medida que mascaravas. Um daqueles seres que parecem segurar o mundo com uma mão até o mundo lhes pedir que o agarrem com verdade.

A afinidade era quase absurda, uma ligação que prometia incêndios e estradas longas. Prometia tudo. Até chegar a hora de cumprir. Foi aí que te desmontaste.

Bastou um contacto mais próximo, um toque de realidade, e o encanto dissipou-se como perfume barato na estação estival. Não houve lentidão, nem coerência. Houve ruptura. Seca. Brutal. Uma viragem tão abrupta que quase fez vento. Primeiro surgiram justificações polidas, frágeis como papel molhado. Depois… o teu teatro, de quem não suporta sustentar as próprias palavras.

Há desaparecimentos silenciosos, dignos. E há o outro tipo. O que precisa de palco, luz e plateia para maquilhar a fuga. Tu escolheste esse. Converteste a retirada numa performance inquieta, feita de gestos estudados e aproximações meticulosas a quem sabes que para mim é intocável. Achavas mesmo que eu não perceberia? Movimentos frios, quase coreográficos, revelando não leveza, mas pânico mascarado. Conversas exibidas como medalhas ocas, presenças lançadas como areia ao vento, tudo milimetricamente calculado para diluir a culpa e ocultar a incoerência. Uma encenação pobre, mas funcional para quem precisa de espectáculo para suportar a própria incapacidade de ficar.

E eu vi tudo. Cada desvio. Cada oscilação. Cada tentativa infantil de provar que estavas “bem”, “ocupado”, “acima”. Muitos acreditam que manipular é arte; em ti era apenas medo com verniz brilhante. Estalado.

É extraordinário como aquilo que parecia profundo se revela raso com um único feixe de verdade. Como alguém que parecia inteiro afinal não era mais do que sombra projectada em parede fina. Como quem prometeu intensidade afinal não suportou o calor que encontrou. Almas gémeas, disseste-me outrora. Patético.

E sim, há vestígios. Aquilo que eliminavas quase no imediato, está aqui, guardado no meu armário mais antigo, entre papéis sem cheiro e memórias que já não ardem. Não são armas. São testemunhos. Fragmentos de um capítulo que não nego porque me ensinou mais do que suportarias saber. E se algum dia tentares redesenhar esta estória para teu proveito, esses fragmentos sabem erguer-se do pó. A verdade tem uma obstinação notável.

Não te odeio. Nem te desejo. Não te quero perto nem longe. Tornaste-te irrelevante quando me mostraste que só sabes viver em modo rascunho. Apenas te vejo como sempre foste: alguém que se aproximou do fogo, achou bonito, mas não teve mãos para o segurar.

E, no fundo, foi isso que me salvou.

Porque não fui eu que perdi alguém. Foste tu que encontraste alguém que te viu inteiro… e não suportaste o reflexo.

Não escrevo isto para ferir. Escrevo para lembrar-te que, comigo, nada volta atrás.

Nunca.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Demons



Não fujo das minhas sombras. Já tentei. Já lhes virei as costas vezes suficientes para saber que, quando o faço, elas crescem. E então aprendi a dançar com elas ou, pelo menos, a não tropeçar demasiado no seu passo irregular.


Voltei a falar do que dói. Daquilo que me fica preso entre a garganta e o estômago. Abri-te aquela porta para que conhecesses os meus cantos mais frágeis, deixei-te entrar onde quase ninguém entra. Confiei-te aquilo que me causa uma ferida aberta e, sem sequer arrefecer, já te sentia com a lâmina fria a dilacerar-me.


O que me rasga não é a mudança. É fingires que não estava a acontecer. Esse teatro mal ensaiado de quem jura que está igual quando tudo em ti gritou o contrário. Logo ali, no dia seguinte. Tão evidente, tão desajeitado, que quase me pergunto se achas que sou cega. Ou estúpida. Ou ambas. A tua tentativa de disfarçar… anedótico. 


Não tiveste sequer coragem de assumir o que estavas a fazer. Esse recuo tímido, esse desaparecimento sorrateiro, como se esconderes as pegadas apagasse o caminho. Fica-me sempre este gosto amargo de voltar a confiar em pessoas parcas em maturidade, que se recusam a ser inteiras. 


Já os meus demónios não mentem, não fogem, não se envergonham de existir. Mostram-me as falhas, exibem as fissuras, rasgam-me onde for preciso, mas fazem-no com uma honestidade brutal (a única coisa que te pedi), quase misericordiosa. E, no meio desse caos íntimo, há mais verdade nos monstros que carrego do que em pessoas que juram tocar-me com cuidado.


Por isso danço com eles. Porque ao menos, no escuro, ninguém finge que é luz.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Drift


Algo mudou. E quando algo muda, perco o chão. Quando estranho, retraio-me. E quando me retraio, fujo.

Ou talvez tenha sido eu a mudar. Talvez sejam as diferenças entre nós, tão gritantes que não consigo fingir que não as vejo. Sei que nada disto me pesaria tanto se falássemos frente a frente, ou voz com voz, se houvesse mais presença do que esta troca quase só escrita e agora, até isso, rarefeita.

Não sei se és tu. Não sei se sou eu. Mas algo mudou. E eu reconheço bem quando a minha intuição se inquieta.

As peças não encaixam. Falta coerência. Falta sentido. E eu, mais uma vez, caio na velha armadilha de esperar demasiado onde talvez nunca tivesse havido espaço para esperar coisa alguma.

Não entendo esta viragem. Procurei a intensidade do nosso contacto, aquela impulsionada pelo toque, pelo corpo, pelo início que parecia promissor. Mas o que recebi foi frieza. Um afastamento que até me antecipaste, mas que não imaginei que surgisse tão cedo, nem desta forma.

ainda algo que não sei como encaixar, mas que não quero esconder. Tenho um presente para esta época festiva. Algo simples, mas pensado por mim. Gostava de to entregar em mãos, embora nem saiba como, nem quando, nem sequer se o queres.

Sinto falta da sinceridade crua. Falta das provocações que nos incendiavam. Dizes que nada mudou, que nunca disseste tal coisa, mas.

Algo mudou. E quando algo muda, perco o chão. Quando estranho, retraio-me. E quando me retraio, fujo.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Yearn

 


Toca e foge. Aproximação e recuo. Um jogo que me deixa à beira do colapso, como um rastilho aceso a correr depressa demais para o meu próprio corpo conseguir acompanhar.

E agora? O que faço comigo? Contigo? Connosco? Mal me afasto e já a tua ausência se infiltra na pele como fome antiga. Quero mais. Quero o teu toque a marcar território, a tua mão firme a puxar-me para a parede, o teu corpo a empurrar o meu como quem decide que acabou o jogo. Quero-te atrás de mim, a morder-me o pescoço enquanto o fecho do vestido cede às tuas intenções. Quero que me voltes a virar para ti, que deixes o vestido cair sem cerimónia, que me contemples em lingerie negra e meias de liga como se fosse uma provocação feita à tua medida. Quero o teu sussurro quente no meu ouvido a admitir que já não consegues adiar aquilo que te devora.

E agora? O que faço comigo? Contigo? Connosco? Toca e foge. Aproximação e recuo. 

Estou em chamas e não encontro forma de me apagar.


sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Tension


 

O que temos em comum? Quase nada. Vidas em mapas distintos, idades desalinhadas, gostos que não se tocam. E, ainda assim, há este magnetismo estranho, uma força que não pedi mas que insiste em manter-nos ligados.

Futuro? Nenhum. Vontade? Toda. A minha, sem disfarces. A tua… só tu e Deus é que lá têm acesso.

O jogo é sempre o mesmo. Tocamos e fugimos, os dois. Aproximação, recuo, provocação, silêncio. Talvez seja isso que me alimenta, este desejo que cresce precisamente por não ter terreno para pousar. Ou será que tem? Quem é que acaba por ceder neste jogo adulto? Nós, que fingimos que não é nada? Ou nós, que continuamos a voltar?


quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Unclaimed

 


Detesto-te. Tornaste-te em tudo aquilo que nunca foste para mim: descartável. Deixei de recordar as nossas memórias com saudade; já nada há de prazeroso a lembrar.


Miragem. Um efeito visual de algo que afinal não está ali, ou que nunca foi o que parecia.


Não consigo, nem quero, encaixar-me no molde que desenhaste para nós. As minhas asas são demasiado largas para a mesquinhez com que agora me tentas tratar.

És um pacote bonito e bem vestido, até bem falante, mas de alma oca, vazia.


Sabe-me bem dizer-te não.

Sabe-me bem recusar-te.

Sabe-me bem apontar-te a porta do meu palácio enquanto deixo a tua gabardina cair aos teus pés.


E sabes porquê?

Porque eu sou mais do que o teu atalho para noites apressadas. Sou pele, sim, mas também mente, história, cicatrizes, vontade, critério, mundo próprio e uma verdade que não se vende ao primeiro gesto fácil.

Sou intensidade que não se serve em copos descartáveis.

Sou presença que exige profundidade, que pede raízes, que não se satisfaz com restos disfarçados de desejo.


Eu sou tudo o que tu nunca tiveste capacidade de alcançar, e exatamente por isso é tão simples fechar-te a porta.


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