Há uma depressão instalada.
No céu e em mim.
Chove há dias. Não é a chuva violenta que limpa, é a outra. Persistente. Fria. Daquela que se infiltra devagar e acaba por se alojar nos ossos. O corpo reage antes do pensamento. Endurece. Defende-se.
No palácio, mantenho-me recolhida. O semblante fechado, negro, tenso. Não é um aviso. É constatação. Não quero presenças agora. Há momentos em que até a proximidade fere. Este é um deles. Preciso de silêncio para não me perder em palavras inúteis.
As salas estão escuras. O frio percorre os corredores como se conhecesse o caminho. As paredes antigas reconhecem este estado. Já o acolheram antes. Sabem que não é fraqueza. É contenção.
Lá fora, os aldeões sentem-no. Não lhes foi dito nada, mas sabem. Há um cuidado novo nos gestos, uma reserva no olhar. Falam mais baixo. Evitam aproximar-se. Quando o centro se fecha, a periferia pressente. Não por medo declarado, mas por uma intuição antiga, herdada.
A trovoada cai na lezíria. Ainda distante. O ar pesa. Há electricidade suspensa. Tudo indica que algo se prepara, mesmo sem data marcada. A terra adivinha estados de espírito. Ajusta-se antes da queda.
Dentro de mim ficou uma mágoa organizada. Não caótica. Uma revolta fria, metódica. Passei a confiar menos em estranhos. A desconfiar mais dos conhecidos. A familiaridade deixou de ser abrigo. Tornou-se hipótese.
Sinto isto como um retrocesso na minha evolução. Trouxe à superfície uma parte minha que eu julgava encerrada. Não a nego. Não a justifico. Reconheço-a. Há em mim uma necessidade de reposição da verdade. Enquanto o desequilíbrio permanece, não há descanso possível. Quando a ordem se recompõe, afasto-me. Não por vitória. Por cessação.
A chuva continua.
O frio mantém-se.
Sei que esta estação não é definitiva, mas também sei que não passa depressa. Há períodos em que a única tarefa é permanecer inteira. Mesmo rígida. Mesmo escura.
O degelo virá depois.
Hoje, não.










