A época estival chega ao fim, embora o sol permaneça alto e a temperatura conserve ainda o calor dos dias longos. Convidas-me a ir ao teu encontro, na tua antiga torre, onde o horizonte continua a oferecer aquele que ambos sabemos ser o melhor pôr do sol do mundo. Chego de vestido comprido, leve, solto, deixando que o vento da tarde se insinue no tecido e me percorra a pele. Descalço-me para sentir a areia fria sob os pés e, quando levanto os olhos, vejo-te junto à rampa da torre. Sorris ao ver-me chegar, o rosto iluminado pelo dourado do fim da tarde, essa luz oblíqua que parece conceder às coisas uma beleza que lhes pertence apenas por breves instantes. Estás fardado. Divirto-me com isso. Há qualquer coisa de deliciosamente improvável em encontrar-te assim, nesse cenário que nos pertence, entre a areia, o mar e a familiaridade de uma torre que já guarda demasiadas histórias para ser apenas uma construção.
Envolves-me nos teus braços e sinto o teu calor, reconfortante, imediato, como se o meu corpo reconhecesse o teu antes mesmo de eu ter tempo de pensar. E o tempo suspende-se nesse instante. Ficamos retidos numa fotografia que ninguém tirou, presos ao aconchego um do outro, à quietude daquele abraço que não exige palavras. Que sensação boa. Tiveste o cuidado de colocar os corta-ventos na torre, voltaste a pendurar o teu pequeno espanta-espíritos e, ao chegar ao topo da rampa, encontro um pequeno retiro: velas acesas, almofadas dispostas com cuidado, frutas no centro e pequenos quadrados de chocolate negro, como se tivesses decidido que a ternura também se constrói através de gestos que ninguém pediu, mas que alguém se lembrou de oferecer. E as tuas pizzas. Não esqueceste as tuas pizzas, meu pizzaiolo amador...! Abraço-te novamente, desta vez por todo o cuidado, por essa forma tão tua de dizer que pensaste em mim sem precisares de o anunciar. Depois, sento-me na rampa, entre as tuas pernas, envolvida nos teus braços, e deixo-me ficar enquanto assistimos ao pôr do sol a comer pizza e a beber um flute de vinho frisante. O sol desce lentamente, derramando sobre o mar uma extensão de ouro líquido, à medida que a luz se dissolve nas nossas mãos, nos nossos rostos, na linha distante do horizonte. Não há pressa. Talvez seja essa a verdadeira luxúria daquele instante: não haver nada que nos obrigue a partir.
O sol desaparece. A praia é progressivamente coberta pela negritude da noite, e as pequenas iluminárias que colocaste na torre tornam-se os únicos pontos de luz, como estrelas domésticas que decidiste acender para nos oferecer um céu mais próximo. Reparo que o mar está particularmente calmo. Há uma serenidade quase suspeita na água, como se também ela tivesse decidido ficar a observar-nos. Viro-me para ti e beijo-te. Um beijo longo, demorado, destinado a saborear o tempo e o espaço, a prolongar aquilo que não precisa de chegar a lado nenhum. Os meus lábios demoram-se nos teus, e há nesse gesto uma intimidade que não se explica, apenas se reconhece.
Dispo o vestido. A brisa que substituiu o vento do final da tarde já não me incomoda. A noite envolve-nos com uma suavidade diferente, e convido-te a acompanhar-me até ao oceano. Acedes. Entramos no mar de mãos dadas, os lábios encontrando-se entre uma respiração e outra, as línguas entrelaçadas num beijo que a água parece querer interromper, sem nunca conseguir. Este mar que nos apresentou outrora. A água envolve-nos, fria e escura, mas o teu corpo aproxima-se do meu com uma familiaridade que me desarma. As tuas mãos percorrem-me com a atenção de quem pretende guardar cada contorno, como se estivesses enciumado da água, dessa água que me toca por todo o lado, que me envolve sem pedir licença. Puxas-me para o teu colo e éncaixo-me em ti com prazer, deixando o mundo perder consistência à nossa volta. Já não há frio, já não há brisa que me incomode, nem a distância entre a pele e a noite, entre o desejo e aquilo que o corpo sabe dizer sem palavras. Há calor. Uma sensação mútua de calor, crescente, profunda, quando nos aproximamos até parecer que a separação entre nós foi apenas um equívoco temporário.
A praia é nossa. Ou, pelo menos, assim parece. O mundo desapareceu na nossa união. Não há vozes, não há relógios, não há nada que nos reclame de volta. Apenas o mar, a torre, a noite e a lua, que derrama sobre a água uma luz prateada, transformando-nos em reflexos que se confundem e se desfazem a cada movimento. Somos apenas isso. Dois corpos suspensos entre a terra e o oceano, entre o que fomos e o que ainda poderíamos ser, iluminados pela lua e guardados pela noite. E, por um instante, não existe mais nada para além de nós.












