Voltaste. Não por acaso, nem por rotina, mas porque o reencontro já acontecia todos os dias, silenciosamente, num espaço comum onde o passado permanecia suspenso, sem nome e sem confronto, como um ruído de fundo persistente que não chega a ser ouvido conscientemente, mas que condiciona tudo. Não foi um regresso. Foi uma presença continuada, imposta, que nunca chegou a transformar-se em ausência.
Houve um tempo em que esse silêncio foi vivido como um exercício de resistência. Estar ali, diariamente, a coexistir com o que tinha sido, sem contacto, sem gesto, sem qualquer tentativa de reparação, exigiu uma disciplina emocional que durante demasiado tempo foi confundida com força. Não deixou de ser sustentável. Foi sempre insustentável. Apenas se prolongou, normalizado, com o corpo e a lucidez a entrarem em modo cruzeiro.
Depois veio a tempestade. A real, a que atravessou lugares concretos e deixou marcas visíveis, materiais, incontornáveis. E perante essa urgência nua, o passado perdeu, por momentos, o seu peso simbólico. As estórias antigas, as fricções acumuladas, as mágoas sem resolução ficaram suspensas. Restou apenas o humano, despojado de narrativa e de defesa.
Foi nesse lugar que te escrevi. Não por reabertura, nem por estratégia, nem por qualquer tentativa de redenção, mas por uma solidariedade consciente, quase instintiva, de quem sabe distinguir feridas antigas de urgências presentes. Escrevi-te sem subtexto, sem cálculo, sem a expectativa de que isso significasse mais do que aquilo que era.
E foi aí que voltaste. Não como quem regressa para resolver, mas como quem já não consegue continuar calado. O pedido de desculpa não se apresentou como solução, nem como fecho, mas como um ponto de partida possível, imperfeito, talvez o único admissível. As palavras vieram, talvez, porque o silêncio deixou de ser suficiente.
Não sei o que fazer com isso. E esse não saber, longe de ser hesitação ou fuga, é agora a única posição honesta. Há gestos que não pedem resposta imediata nem decisão clara, apenas espaço para não serem desperdiçados pela pressa ou pela necessidade artificial de conclusão.
O tempo, entretanto, nada apagou. Depurou. Retirou o excesso, as justificações, as ilusões de controlo e deixou visível aquilo que permanece mesmo depois de tudo o resto ceder. Aquilo que resiste não por insistência, mas por verdade.
Sigo em frente. E nesse movimento contínuo regressas-me em fragmentos inevitáveis: a presença quotidiana que nunca cessou totalmente, a memória suspensa que não se resolve, as fricções que ficaram por nomear. Habito esse território intermédio onde a possibilidade existe, mas não se oferece, onde nada é prometido e nada é negado e onde ficar é, por enquanto, apenas uma forma consciente de não mentir.
Continuo a andar. Porque haverá, inevitavelmente, uma conversa séria. Em voz. Ou em presença. Um tempo em que as feridas abertas terão de ser vistas como tal, sem minimização, confrontando-se a gravidade dos danos infligidos e das omissões sustentadas. Mas ainda não é esse o tempo. O agora exige cuidado, estabilização, atenção ao que urge, enquanto novas tempestades se anunciam no horizonte. O depois não se decide agora; fica para depois.











