quinta-feira, 2 de abril de 2026

O meu nome é Alice…

 


… e sou ingénua. Nunca entendo o que se passa, nem tenho a ombridade de perceber ou de acreditar no que me dizem.

Nem sempre foi assim. Houve um tempo em que me julgava atenta, moldada pelo excesso de dor que conheci em mãos e em gestos alheios. Convenci-me de que sabia ler o que não era dito, de que conseguia detectar desvios subtis, observar minúcias, desconstruir personalidades, expor - ainda que em silêncio - as arquitecturas frágeis de egos narcisistas, inseguros, quase ícaros, condenados à própria ilusão de grandeza.

Hoje, nada sei. Desaprendi-me. Há em mim um cansaço antigo, como se tivesse sido deixada para trás por uma geração que tudo nomeia, tudo sente, tudo afirma. Eu já não pertenço a esse lugar de certezas ruidosas.

O meu nome é Alice e nunca fui a primeira escolha de alguém. Nunca. Sou a hipótese adiada, a presença conveniente, o intervalo preenchido quando o aborrecimento se insinua. Sou o entretém de horas mortas, a variação breve numa rotina que não me inclui.

Sou importante, dizem, mas sempre com uma margem invisível. Significo muito, mas apenas dentro de limites que não controlo. Represento tanto, mas nunca o suficiente para ocupar um lugar inteiro.

O meu nome é Alice. Fui a paixão mais intensa, o amor de uma vida sussurrado em momentos certos, a confidente constante, o abrigo disponível. E, ainda assim, nunca bastou. Nunca fui escolhida em definitivo, nunca fui o destino, apenas o desvio.

Fui demasiado carente, demasiado traumatizada, até ciumenta. Fui deprimida, pouco compreensiva no meu papel de segunda escolha.

Disseram-me isso tantas vezes que acabei por aceitar essas palavras como se fossem minhas, como se me tivessem sido inscritas na pele desde sempre. Como se a falha fosse estrutural, inevitável, minha.

O meu nome é Alice e aprendi a duvidar de tudo o que sentia. A pedir desculpa antes de existir. A ajustar o tom, o olhar, o silêncio. A diminuir-me até caber em espaços onde nunca houve verdadeiramente lugar para mim.

Fui demais. Depois, insuficiente. E acreditei nas duas versões, sem perceber que nenhuma delas me continha inteira.

Houve dias em que me perdi de mim. Em que a minha voz me soava estranha, distante, como se viesse de outra mulher qualquer. Dias em que o espelho devolvia um rosto que eu já não sabia habitar.

O amor, disseram-me, e eu acreditei. Mas o amor chegava em fragmentos, contaminado por ausências, por friezas repentinas, por silêncios que pesavam como castigos. Um amor que apertava devagar, sem deixar marcas visíveis, mas com nós cada vez mais difíceis de desatar.

O meu nome é Alice e quase fui sufocada às mãos de quem outrora amei. E ainda assim fiquei. Fiquei mais do que devia, mais do que podia, mais do que alguma vez confessarei sem hesitar. Fiquei inteira onde já estava partida.

O meu nome é Alice e sobrevivi a palavras que não foram ditas, mas que me atravessaram como se tivessem sido gritadas. A promessas suspensas, a gestos ambíguos que confundiam cuidado com controlo.

Até que algo em mim, quase imperceptível, recusou ceder mais um centímetro. Não foi bravura. Não foi redenção. Foi lucidez cansada.

O meu nome é Alice e, pela primeira vez, acreditei em mim. Não em declarações grandiosas, não em certezas absolutas. Acreditei em pequenas rupturas. No desconforto que já não aceitava ignorar. Na dor que deixou de ser justificável. Na ausência de paz que nenhum amor deveria exigir como condição.

Saí. Sem espectáculo, sem força épica, sem a leveza que os finais gostam de prometer. Saí com medo, com dúvidas, com o corpo ainda treinado para ficar. Mas saí.

Hoje, o meu nome é Alice e carrego cicatrizes que não escondo nem explico. Não são troféus, mas também já não são feridas abertas. São mapas silenciosos, lembranças firmes de territórios onde não volto, mesmo quando a memória tenta suavizar o que foi.

Já não sou ingénua. E, no entanto, recuso tornar-me dura. Sou minha. Com excesso, com falhas, com tudo aquilo que me ensinaram a reduzir. E, pela primeira vez, não sou a escolha de ninguém.

Sou a minha. 

sábado, 21 de março de 2026

Ocean

 


O oceano sempre teve em mim um efeito calmante. Sempre que a tempestade se instala na minha mente, abandono o meu palácio e caminho até ele, deixando que a areia me receba os pés, quente ou fria, pouco importa.

Por vezes levo música comigo. Outras, entrego-me inteira ao turbilhão que me habita. Sento-me no areal e começo a tecer conjunturas: o que é, o que já foi, o que poderia vir a ser. Equaciono decisões, desdobro consequências, e quase sempre chego a um lugar de lucidez que me permite escolher com uma precisão que poucos suspeitam.

As pessoas cansam-me. Julgam-me ingénua, talvez pela urgência com que sinto, pela forma quase voraz com que me entrego ao instante. Mas não o sou. Nunca fui. Vejo-te com uma clareza que já não me dói: reconheço a forma como tentas manipular com palavras que outrora me encantavam, a subtileza com que ensaias a indiferença para me desestabilizar, o modo como insinuas uma paixão que já não habita em lado nenhum.

Cansas-me. E isso, agora, é tudo o que preciso de saber.

O meu foco sou eu. E nesse lugar, onde finalmente me encontro sem ruído, vejo-te como és: cansado, gasto, quase ausente de ti próprio. Que poderia eu ainda desejar de ti? Talvez apenas isto, simples e distante: que consigas ser feliz com o que tens.

Já me tiveste. E eu não volto atrás.

Nunca.

domingo, 8 de março de 2026

TDC

 


Tenho TDC.


Sei, com a lucidez fria dos factos, que o meu corpo está bem. Tudo o confirma: a disciplina da alimentação, a persistência dos treinos, os números discretos nas etiquetas da roupa, até os comentários inesperados de quem me observa com uma admiração que não sei bem onde pousar. Ainda assim, diante do espelho, algo sempre falha. Como se o reflexo não fosse exactamente meu, mas uma versão alterada, imperfeita, defeituosa, insistente em apontar aquilo que mais ninguém parece ver.


Não sou perfeita. E talvez seja esse o combate mais silencioso que travo todos os dias: resistir à sedução de uma perfeição que não existe, em lado nenhum, para ninguém. Uma ideia fantasma que, ainda assim, insiste em sussurrar exigências impossíveis.


Há dias em que essa luta me deixa exausta.

Porque aquilo que se vê à superfície raramente conta a história inteira. A pele pode sugerir firmeza, presença, até uma certa intensidade que os outros confundem com segurança. Mas por dentro existem fissuras. Lugares frágeis, humanos, profundamente humanos.


Carrego uma espécie de armadura que aprendi a vestir cedo demais. Funciona bem à distância. Brilha até, por vezes. Mas não deixa de ser apenas isso: uma armadura.


Debaixo dela existe alguém que ainda duvida, que ainda se espanta com a própria vulnerabilidade, que por vezes desejaria possuir a serenidade inabalável que imagina nos outros. A verdade, porém, é outra. Estou muito mais próxima da inocência desarmada de quem ainda acredita, do que da firmeza imperturbável que o mundo parece exigir.


E talvez seja precisamente aí que habita a minha parte mais verdadeira.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Devour

 


Química. Magnetismo.

Esse poder que me arrasta para ti como um fio invisível e tenso, condutor de uma electricidade que me desassossega a alma e o corpo.


Penso em ti com frequência. Não na cadência linear de um desejo constante, mas nas dicotomias caprichosas que me atravessam. Há dias em que o corpo se queixa, dorido e lento. Outros em que a mente se rende, exausta. Há ainda aqueles em que a química me puxa na tua direcção e quase sinto a pele arder por dentro e os dias em que o humor se ausenta ou, paradoxalmente, transborda. Penso em ti em todas essas variações e a conclusão impõe-se com uma nitidez inquietante: existe, de facto, algo de pouco racional que me atrai e me conduz até ti.


No meu sono habitual, leve e vulnerável, sinto-te. A tua mão quente desliza pelo meu pé, sobe devagar, enquanto a tua respiração me roça e os teus lábios exploram a minha pele como se lessem um mapa secreto. Não há palavras. A tua boca envolve-me e devolve-me o meu próprio sabor, para logo regressar ao ponto de partida.


As minhas costas arqueiam de forma rítmica, ajustadas à tua língua, que prossegue com mestria e me deixa quase num estado ébrio. O seu a seu dono. O mérito de entrar em clímax na tua boca, onde me permito alguns espasmos antes de te puxar para mim e te beijar de forma sôfrega, querendo sentir-nos inteiros dentro desse beijo.


Pouco depois viras-me de costas e sorrio. Ofereço-te o corpo com o peito contra a cama enquanto escuto o teu murmúrio rouco:


“Foda-se, Alice. Que visão…”


Balouço lentamente de um lado para o outro, felina e provocadora, até te sentir. Não te concedo entrada cautelosa. Empurro-me contra ti com urgência firme, gemendo, impondo um ritmo febril, contraindo-te dentro de mim, adivinhando o teu desfecho iminente. A excitação cresce tanto que paro. Viro-me, lanço-te para a cama e cavalgo-te com força e cadência, sentindo-te ceder, conduzindo-te comigo até um novo clímax, desta vez em uníssono.


Quando acordo, não estás ao meu lado. Invadiste o meu sono leve e dele não saíste.


Na realidade? Só o tempo o dirá.


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Haven


Acordo inquieta. Acontece sempre que me ausento do palácio, como se o meu corpo reconhecesse a ausência de trono e protestasse em sobressalto. Estou sozinha, envolta em lençóis frios que não me pertencem, exilada num quarto alheio que ainda não aprendeu o meu nome. Esgueiro-me até à casa de banho e detenho-me diante do espelho. Observo-me demoradamente. Analiso o rosto cansado, sulcado por rugas de expressão que denunciam batalhas invisíveis, antes de o devolver à vigília com água gelada.

Cedi.


Segui uma linha invisível que me conduziu até ti e, sem resistência digna de crónica, cedi. És jovem, irreverente, inconsequente, perigosamente previsível. Mas não o somos todos, quando observados com atenção suficiente? Cada um de nós revela a essência verdadeira, desde que alguém saiba olhar sem se distrair com ornamentos inúteis.


Cedi.


Abri-te a porta deste quarto que não me pertence e entraste já despido da pose majestosa de quem domina territórios, desconfiado, quase alerta, como presa que pressente ter atravessado a toca da predadora. Diverti-me com isso. Sorri-te, lenta, para te encorajar. Dirigiste-te à varanda. A noite era cerrada, o céu salpicado de estrelas vivas e lançavas palavras soltas ao ar, talvez para espantar o nervosismo próprio da tua idade. Ouvi-te falar sem pausa, quase sem respirar, enquanto me despia e me instalava, serena, na minha camisa de noite curta de cetim pérola.


Quando te voltaste, o silêncio tornou-se presença. Aceitaste o copo de Chardonnay que te estendi e engoliste metade de um só trago. Sorriste. Sorri. Largaste o teu copo, retiraste o meu da minha mão e ergueste-me pela cintura para me beijares com sofreguidão, como quem teme que a coragem expire antes do gesto.


Caímos na cama. Contagiei-me com a tua urgência e procurei o cinto das tuas calças enquanto permanecíamos unidos pela língua e pelo fôlego. Livras-te das calças e da t-shirt e em instantes o quarto era um campo rendido de peças de roupa e calçado em desalinho.


Entras em mim sem pedir licença. Cru. Visceral. Rápido. A precipitação de quem deseja consumir uma fantasia antes que ela desperte. És inexperiente. Encontras ritmo depressa demais e sorris com um nervosismo quase terno. Afasto-te. Murmuro-te que a noite possui horas, não minutos, para se cumprir. Respiras fundo. Concentras-te. E regressas.


Então sim. Acertamos o compasso. A minha respiração fragmenta-se a cada investida firme e compreendes finalmente a língua do meu corpo. Alinhas nos movimentos da minha anca enquanto te prendo com as pernas num abraço progressivamente mais apertado. Atinges o clímax comigo, em êxtase, e tombas sobre mim a rir, como se a vitória fosse surpresa.


Ficaste a meu lado durante horas, explorando cada centímetro da minha pele com a ponta dos dedos, interrogando-me com curiosidade infantil, afirmando que não posso pertencer a esta era, que o tempo não ousou tocar-me. Oiço-te divertida e deixo o mito suspenso no ar, intacto.


Adormeci quando a claridade começava a insinuar-se no céu. Fazias-me festas no cabelo dourado em desalinho, com uma delicadeza quase reverente. Perguntei-me então por que razão cedi.


Cedi à crueza.

Cedi à jovialidade.

Cedi à simplicidade desarmante do teu pensamento.

Cedi ao sorriso que me desorganizava a lucidez.


Cedi.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Bare

 


O dia amanhece e nuvens densas no horizonte escondem aquele que mais me aquece, cuja ausência sinto como ferro frio sobre a pele. Alguns raios de luz esforçam-se por escapar da prisão de algodão, mas fracassam, tímidos, reticentes.


Espreguiço-me à janela, num misto de preguiça e luxúria por te ter em pensamento. Intrigas-me. Se, por um lado, te decifro com facilidade e tudo encaixa segundo o meu discernimento, por outro, inquieta-me aquilo que não ousas proferir, o silêncio entre palavras, esse intervalo onde adivinho mais do que aquilo que me ofereces.


Um melro canta na árvore em frente, indiferente à chuva que ainda insiste em cair, agora com menor intensidade do que na última semana. Recorda-me a metáfora de Deolinda em Eu Tenho Um Melro. Sorrio. Há um misto de deslumbramento, curiosidade e receio, até do próprio sentir. E eu, que tanto gosto de sentir…


O que é a vida senão um contínuo sentir? Não é apenas um coração a bater, nem o oxigénio a circular para que o corpo funcione. A vida é excesso e falha, é a vertigem do êxtase e a violência da dor que quase nos arranca as entranhas. É viver sem arrependimento, escolher o tudo ou o pouco, mas nunca o nada. É permitir que o curso flua, com a lucidez resignada de quem sabe que o que tem de ser, assim será.


Desço descalça a escadaria do palácio. Cada degrau alonga o eco do que não foi dito, do que ficou suspenso, irresoluto, entre nós. O frio da pedra sobe-me pelas pernas, acorda-me o corpo, como se me pedisse presença total para aquilo que ainda não aconteceu, mas já pesa.


Tens tanto a mostrar-me ainda. Tantas palavras por assumir, por revelar, por confessar. O receio que te habita acompanha-me na descida, torna-se sombra, torna-se hipótese, torna-se quase um aviso. Por instantes, sinto-me a endurecer por dentro, a erguer uma versão de mim mesma mais distante, mais impenetrável.


Quase me converto na Petra. Altiva, marmórea, terrivelmente bela, inatingível. Uma figura segura, polida, construída para não precisar de nada, nem de ninguém.


Mas essa não sou eu por inteiro.


Continuo a descer, recusando a armadura. Prefiro a pele exposta, o risco, a vulnerabilidade que me compromete. No último degrau, já não represento. Já não me protejo. Permaneço inteira, imperfeita, aberta ao que vier.


Sou apenas eu.

Sem parêntesis.

Sem subterfúgios.

E ainda assim, aqui.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Chemistry

 


Não amor. Não paixão.

Química.


Essa força obscura que nos impele para outra pessoa que podemos nem conhecer. O olhar que se demora meio segundo a mais. A postura corporal que denuncia intenção antes da consciência. O timbre de voz, o sorriso oblíquo, quase provocatório. E dá-se a reacção. Súbita. Inevitável. Uma reacção química desprovida de racionalidade ou planeamento, uma afinidade que irrompe sem pedir licença, imune a explicações. É sentir o encaixe antes de compreender o porquê.


Por vezes manifesta-se onde não devia.

Outras vezes ausenta-se onde tudo parecia propício.

E isso, por si só, é revelador.


Mesmo num cenário de ruptura, passe o tempo que passar, com a erosão completa do sentimento ou com o ódio já solidificado, basta o cruzar de olhares para que a química seja de novo convocada. Querer agredir-te enquanto te desejo beijar. Sentir a cólera de um desencontro qualquer e, em simultâneo, projectares-me contra uma parede, na urgência febril de um antes que o mundo termine.


Querer afastar-me e, ainda assim, sucumbir a um magnetismo obstinado, inexplicável. Um súbito libertar de dopamina, oxitocina e serotonina que desorganiza, que desestabiliza, que subverte. Como uma memória emocional arcaica. Como padrões inconscientes de reconhecimento que o corpo activa muito antes de a cabeça autorizar.


Eu, intensa por natureza, vivo-o de forma mais aguerrida.

O prazer e a pulsão de ferir coexistem em mim com idêntica ferocidade.


O nosso reencontro não será sereno.

Nem polido.

Nem de conversa amena.


Será um comboio de tempestades a exigir acontecer, voraz, indomável, para resgatar o tempo perdido.


Química.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Snowglobe

 


Há regressos que não chegam como redenção, mas como um pedido silencioso de espaço. O teu não foi estrondoso. Não houve fanfarra nem promessas reeditadas. Houve presença. E isso, depois do que ficou por dizer, pesa mais do que qualquer discurso ensaiado.


A ferida não sarou. Foi empurrada para uma gaveta, dessas que fechamos à pressa quando a casa recebe visitas inesperadas. Continua ali. Sei onde está. Sinto-a quando me mexo depressa demais por dentro. E, ainda assim, aprendi a lidar com a tua presença após a ruptura. Com a regularidade desconfortável de quem continua ali, visível, audível, demasiado próximo para ser esquecido e demasiado distante para ser tocado. Aprendi a sustentar o afastamento como se não te tivesse lido antes, como se não reconhecesse no teu semblante o contorno exacto da tua ausência.


O esforço foi real e silencioso. Um cansaço acumulado de fingir neutralidade perante alguém que já foi excesso. Um exercício hercúleo de contenção e civilidade emocional, de passos medidos sobre um chão que sei frágil. Encarei-te como estranho, recusando devolver-te o lugar que ocupaste. Mantive-te num intervalo preciso, suspenso, onde nada era negado e nada era concedido.


O teu pedido de desculpa chegou sem ornamentos. E foi isso que o tornou difícil de ignorar. Não soou a teatro. Soou a reconhecimento. Admitiste o afastamento. Admitiste o medo. Não de mim, mas do que sentias em excesso. Demais. Palavra curiosa, essa, quando proferida por quem quis afastamento precisamente por não saber onde pousar a intensidade.


E depois há o que não se explica. Somos diferentes até nos detalhes. Pensamos em direcções opostas, habitamos ritmos incompatíveis, vimos de geografias internas que raramente se tocam. E, ainda assim, quando estamos no mesmo espaço, algo insiste. Um magnetismo quase irritante, desses que não pedem licença à razão. Não é escolha. É fenómeno.


Dou por mim a sorrir outra vez. Um sorriso leve, quase esquecido, que regressa sem alarde ao meu rosto. Não é euforia. É beleza contida. Uma espécie de lembrança corporal de quem sou quando não estou em defesa permanente. E acontece precisamente hoje, no dia em que se cumprem dois meses desde aquela viragem abrupta, concentrada em dois dias que mudaram tudo sem aviso.


Sinto-me como um globo de neve. Agitado por mãos externas, envolto num reboliço de flocos e glitter, bonito à vista, mas confinado a um espaço controlado. Tudo brilha, tudo se move, mas nada transborda. Ainda.


Não sei o que este regresso é. Sei apenas o que não é. Não é absolvição. Não é esquecimento. Não é retorno ao que doeu. É um ponto intermédio, frágil e consciente, onde aceito sentir sem me abandonar.


Senti a tua falta. 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Reckoning


Voltaste. Não por acaso, nem por rotina, mas porque o reencontro já acontecia todos os dias, silenciosamente, num espaço comum onde o passado permanecia suspenso, sem nome e sem confronto, como um ruído de fundo persistente que não chega a ser ouvido conscientemente, mas que condiciona tudo. Não foi um regresso. Foi uma presença continuada, imposta, que nunca chegou a transformar-se em ausência.


Houve um tempo em que esse silêncio foi vivido como um exercício de resistência. Estar ali, diariamente, a coexistir com o que tinha sido, sem contacto, sem gesto, sem qualquer tentativa de reparação, exigiu uma disciplina emocional que durante demasiado tempo foi confundida com força. Não deixou de ser sustentável. Foi sempre insustentável. Apenas se prolongou, normalizado, com o corpo e a lucidez a entrarem em modo cruzeiro. 


Depois veio a tempestade. A real, a que atravessou lugares concretos e deixou marcas visíveis, materiais, incontornáveis. E perante essa urgência nua, o passado perdeu, por momentos, o seu peso simbólico. As estórias antigas, as fricções acumuladas, as mágoas sem resolução ficaram suspensas. Restou apenas o humano, despojado de narrativa e de defesa.


Foi nesse lugar que te escrevi. Não por reabertura, nem por estratégia, nem por qualquer tentativa de redenção, mas por uma solidariedade consciente, quase instintiva, de quem sabe distinguir feridas antigas de urgências presentes. Escrevi-te sem subtexto, sem cálculo, sem a expectativa de que isso significasse mais do que aquilo que era.


E foi aí que voltaste. Não como quem regressa para resolver, mas como quem já não consegue continuar calado. O pedido de desculpa não se apresentou como solução, nem como fecho, mas como um ponto de partida possível, imperfeito, talvez o único admissível. As palavras vieram, talvez, porque o silêncio deixou de ser suficiente.


Não sei o que fazer com isso. E esse não saber, longe de ser hesitação ou fuga, é agora a única posição honesta. Há gestos que não pedem resposta imediata nem decisão clara, apenas espaço para não serem desperdiçados pela pressa ou pela necessidade artificial de conclusão.


O tempo, entretanto, nada apagou. Depurou. Retirou o excesso, as justificações, as ilusões de controlo e deixou visível aquilo que permanece mesmo depois de tudo o resto ceder. Aquilo que resiste não por insistência, mas por verdade.


Sigo em frente. E nesse movimento contínuo regressas-me em fragmentos inevitáveis: a presença quotidiana que nunca cessou totalmente, a memória suspensa que não se resolve, as fricções que ficaram por nomear. Habito esse território intermédio onde a possibilidade existe, mas não se oferece, onde nada é prometido e nada é negado e onde ficar é, por enquanto, apenas uma forma consciente de não mentir.


Continuo a andar. Porque haverá, inevitavelmente, uma conversa séria. Em voz. Ou em presença. Um tempo em que as feridas abertas terão de ser vistas como tal, sem minimização, confrontando-se a gravidade dos danos infligidos e das omissões sustentadas. Mas ainda não é esse o tempo. O agora exige cuidado, estabilização, atenção ao que urge, enquanto novas tempestades se anunciam no horizonte. O depois não se decide agora; fica para depois. 

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