A minha maior perplexidade não reside na descoberta da mesquinhez humana, com a qual a vida invariavelmente nos confronta, mas na extraordinária capacidade que certas criaturas possuem de disfarçar a sua indigência de carácter sob sucessivas camadas de sofrimento cuidadosamente encenado. Durante demasiado tempo, confundi carência com vulnerabilidade, insistência com afecto e uma deplorável necessidade de atenção com alguma profundidade emocional que, afinal, nunca existiu. Hoje, quando revisito as horas desperdiçadas, a compreensão concedida e a proximidade que permiti, não encontro saudade ou qualquer vestígio de ternura, apenas uma repulsa visceral perante a consciência tardia daquilo que deixei aproximar-se.
E tu, que tão habilmente te aproprias das fragilidades alheias para alimentares a tua miserável narrativa de vítima, continuas a confundir a tua obstinação com importância. Transformas os teus actos em consequências das atitudes dos outros, inventas provocações que justifiquem a tua perversidade e procuras, nas vidas que já não te pertencem, as migalhas de atenção que a tua verdadeira natureza te impede de conquistar. Nem a rejeição te devolve a dignidade de desapareceres discretamente. Preferes rastejar pelas margens, insinuar-te através de terceiros, rondar afectos que te foram vedados, como se a insistência pudesse conferir-te um lugar que perdeste definitivamente. Que existência tão diminuta deve ser a tua, para necessitares de te imaginar indispensável à vida de quem já não suporta sequer a ideia da tua presença.
A minha ausência naquele que poderia ter sido o nosso último encontro não foi casual, nem resultou de qualquer hesitação sentimental. Foi deliberada, consciente e profundamente desejada, porque a simples perspectiva de voltar a contemplar-te me provocava um asco que nenhuma convenção social justificaria contrariar. E, se alguma coisa verdadeiramente me entristece, é reconhecer que ofereci parte de mim a quem não merecia sequer a gentileza de um cumprimento. Não me arrependo da minha humanidade, mas da deplorável escolha de quem dela beneficiou.
Continua, pois, a espreitar pelas grades da sarjeta, a interpretar sombras como convites e silêncios como sinais de uma importância que só existe na tua imaginação. A vida prossegue à superfície, indiferente à tua necessidade de protagonismo, e nenhuma das tuas encenações conseguirá transformar o meu desprezo em interesse. Não confundas estas palavras com uma tentativa de diálogo, porque nem sequer a minha repulsa te concede o direito de resposta. São apenas o epitáfio de um erro que não pretendo repetir.
A grade voltou ao seu lugar e tu permaneces onde sempre estiveste, embora eu tenha demorado demasiado tempo a compreender que não eras alguém à espera de ser resgatado, mas uma criatura perfeitamente adaptada ao esgoto.
Maldita a hora em que te permiti sair.













