Há regressos que não chegam como redenção, mas como um pedido silencioso de espaço. O teu não foi estrondoso. Não houve fanfarra nem promessas reeditadas. Houve presença. E isso, depois do que ficou por dizer, pesa mais do que qualquer discurso ensaiado.
A ferida não sarou. Foi empurrada para uma gaveta, dessas que fechamos à pressa quando a casa recebe visitas inesperadas. Continua ali. Sei onde está. Sinto-a quando me mexo depressa demais por dentro. E, ainda assim, aprendi a lidar com a tua presença após a ruptura. Com a regularidade desconfortável de quem continua ali, visível, audível, demasiado próximo para ser esquecido e demasiado distante para ser tocado. Aprendi a sustentar o afastamento como se não te tivesse lido antes, como se não reconhecesse no teu semblante o contorno exacto da tua ausência.
O esforço foi real e silencioso. Um cansaço acumulado de fingir neutralidade perante alguém que já foi excesso. Um exercício hercúleo de contenção e civilidade emocional, de passos medidos sobre um chão que sei frágil. Encarei-te como estranho, recusando devolver-te o lugar que ocupaste. Mantive-te num intervalo preciso, suspenso, onde nada era negado e nada era concedido.
O teu pedido de desculpa chegou sem ornamentos. E foi isso que o tornou difícil de ignorar. Não soou a teatro. Soou a reconhecimento. Admitiste o afastamento. Admitiste o medo. Não de mim, mas do que sentias em excesso. Demais. Palavra curiosa, essa, quando proferida por quem quis afastamento precisamente por não saber onde pousar a intensidade.
E depois há o que não se explica. Somos diferentes até nos detalhes. Pensamos em direcções opostas, habitamos ritmos incompatíveis, vimos de geografias internas que raramente se tocam. E, ainda assim, quando estamos no mesmo espaço, algo insiste. Um magnetismo quase irritante, desses que não pedem licença à razão. Não é escolha. É fenómeno.
Dou por mim a sorrir outra vez. Um sorriso leve, quase esquecido, que regressa sem alarde ao meu rosto. Não é euforia. É beleza contida. Uma espécie de lembrança corporal de quem sou quando não estou em defesa permanente. E acontece precisamente hoje, no dia em que se cumprem dois meses desde aquela viragem abrupta, concentrada em dois dias que mudaram tudo sem aviso.
Sinto-me como um globo de neve. Agitado por mãos externas, envolto num reboliço de flocos e glitter, bonito à vista, mas confinado a um espaço controlado. Tudo brilha, tudo se move, mas nada transborda. Ainda.
Não sei o que este regresso é. Sei apenas o que não é. Não é absolvição. Não é esquecimento. Não é retorno ao que doeu. É um ponto intermédio, frágil e consciente, onde aceito sentir sem me abandonar.
Senti a tua falta.










