Não amor. Não paixão.
Química.
Essa força obscura que nos impele para outra pessoa que podemos nem conhecer. O olhar que se demora meio segundo a mais. A postura corporal que denuncia intenção antes da consciência. O timbre de voz, o sorriso oblíquo, quase provocatório. E dá-se a reacção. Súbita. Inevitável. Uma reacção química desprovida de racionalidade ou planeamento, uma afinidade que irrompe sem pedir licença, imune a explicações. É sentir o encaixe antes de compreender o porquê.
Por vezes manifesta-se onde não devia.
Outras vezes ausenta-se onde tudo parecia propício.
E isso, por si só, é revelador.
Mesmo num cenário de ruptura, passe o tempo que passar, com a erosão completa do sentimento ou com o ódio já solidificado, basta o cruzar de olhares para que a química seja de novo convocada. Querer agredir-te enquanto te desejo beijar. Sentir a cólera de um desencontro qualquer e, em simultâneo, projectares-me contra uma parede, na urgência febril de um antes que o mundo termine.
Querer afastar-me e, ainda assim, sucumbir a um magnetismo obstinado, inexplicável. Um súbito libertar de dopamina, oxitocina e serotonina que desorganiza, que desestabiliza, que subverte. Como uma memória emocional arcaica. Como padrões inconscientes de reconhecimento que o corpo activa muito antes de a cabeça autorizar.
Eu, intensa por natureza, vivo-o de forma mais aguerrida.
O prazer e a pulsão de ferir coexistem em mim com idêntica ferocidade.
O nosso reencontro não será sereno.
Nem polido.
Nem de conversa amena.
Será um comboio de tempestades a exigir acontecer, voraz, indomável, para resgatar o tempo perdido.
Química.









