O dia amanhece e nuvens densas no horizonte escondem aquele que mais me aquece, cuja ausência sinto como ferro frio sobre a pele. Alguns raios de luz esforçam-se por escapar da prisão de algodão, mas fracassam, tímidos, reticentes.
Espreguiço-me à janela, num misto de preguiça e luxúria por te ter em pensamento. Intrigas-me. Se, por um lado, te decifro com facilidade e tudo encaixa segundo o meu discernimento, por outro, inquieta-me aquilo que não ousas proferir, o silêncio entre palavras, esse intervalo onde adivinho mais do que aquilo que me ofereces.
Um melro canta na árvore em frente, indiferente à chuva que ainda insiste em cair, agora com menor intensidade do que na última semana. Recorda-me a metáfora de Deolinda em Eu Tenho Um Melro. Sorrio. Há um misto de deslumbramento, curiosidade e receio, até do próprio sentir. E eu, que tanto gosto de sentir…
O que é a vida senão um contínuo sentir? Não é apenas um coração a bater, nem o oxigénio a circular para que o corpo funcione. A vida é excesso e falha, é a vertigem do êxtase e a violência da dor que quase nos arranca as entranhas. É viver sem arrependimento, escolher o tudo ou o pouco, mas nunca o nada. É permitir que o curso flua, com a lucidez resignada de quem sabe que o que tem de ser, assim será.
Desço descalça a escadaria do palácio. Cada degrau alonga o eco do que não foi dito, do que ficou suspenso, irresoluto, entre nós. O frio da pedra sobe-me pelas pernas, acorda-me o corpo, como se me pedisse presença total para aquilo que ainda não aconteceu, mas já pesa.
Tens tanto a mostrar-me ainda. Tantas palavras por assumir, por revelar, por confessar. O receio que te habita acompanha-me na descida, torna-se sombra, torna-se hipótese, torna-se quase um aviso. Por instantes, sinto-me a endurecer por dentro, a erguer uma versão de mim mesma mais distante, mais impenetrável.
Quase me converto na Petra. Altiva, marmórea, terrivelmente bela, inatingível. Uma figura segura, polida, construída para não precisar de nada, nem de ninguém.
Mas essa não sou eu por inteiro.
Continuo a descer, recusando a armadura. Prefiro a pele exposta, o risco, a vulnerabilidade que me compromete. No último degrau, já não represento. Já não me protejo. Permaneço inteira, imperfeita, aberta ao que vier.
Sou apenas eu.
Sem parêntesis.
Sem subterfúgios.
E ainda assim, aqui.


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