sábado, 7 de fevereiro de 2026

Chemistry

 


Não amor. Não paixão.

Química.


Essa força obscura que nos impele para outra pessoa que podemos nem conhecer. O olhar que se demora meio segundo a mais. A postura corporal que denuncia intenção antes da consciência. O timbre de voz, o sorriso oblíquo, quase provocatório. E dá-se a reacção. Súbita. Inevitável. Uma reacção química desprovida de racionalidade ou planeamento, uma afinidade que irrompe sem pedir licença, imune a explicações. É sentir o encaixe antes de compreender o porquê.


Por vezes manifesta-se onde não devia.

Outras vezes ausenta-se onde tudo parecia propício.

E isso, por si só, é revelador.


Mesmo num cenário de ruptura, passe o tempo que passar, com a erosão completa do sentimento ou com o ódio já solidificado, basta o cruzar de olhares para que a química seja de novo convocada. Querer agredir-te enquanto te desejo beijar. Sentir a cólera de um desencontro qualquer e, em simultâneo, projectares-me contra uma parede, na urgência febril de um antes que o mundo termine.


Querer afastar-me e, ainda assim, sucumbir a um magnetismo obstinado, inexplicável. Um súbito libertar de dopamina, oxitocina e serotonina que desorganiza, que desestabiliza, que subverte. Como uma memória emocional arcaica. Como padrões inconscientes de reconhecimento que o corpo activa muito antes de a cabeça autorizar.


Eu, intensa por natureza, vivo-o de forma mais aguerrida.

O prazer e a pulsão de ferir coexistem em mim com idêntica ferocidade.


O nosso reencontro não será sereno.

Nem polido.

Nem de conversa amena.


Será um comboio de tempestades a exigir acontecer, voraz, indomável, para resgatar o tempo perdido.


Química.

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