Estás aqui. Sinto-te, tal como os aldeões sentem a minha inquietude antes de a confessar. Não intervéns, mas existes em cada espaço que deixo, em cada sombra que as minhas palavras desenham. Sorves cada palavra que escrevo, silencioso, quase a pairar sobre mim, impossível de ignorar.
Há algo em ti que não se revela e que, ainda assim, insiste. Permaneces no limite, demasiado presente para ser acaso, demasiado distante para ser diálogo. Crias um desassossego que não pedi e que não consigo afastar. Continuas a regressar às minhas palavras como se nelas houvesse algo que te chama, ou que te pertence. Não sei se procuras entendimento, confronto ou apenas permanência, mas ficas.
Ficas. Não porque te chame, nem porque te reconheça como destino. Ficas como ficam certas presenças que não se pedem nem se afastam. As minhas palavras seguem o seu curso, alheias ao teu olhar, anteriores à tua chegada, intactas na sua intenção, indiferentes à tua partida. O que escrevo não se ajusta, não se explica, não se oferece. Tu simplesmente observas. Eu escrevo.


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