terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Haven


Acordo inquieta. Acontece sempre que me ausento do palácio, como se o meu corpo reconhecesse a ausência de trono e protestasse em sobressalto. Estou sozinha, envolta em lençóis frios que não me pertencem, exilada num quarto alheio que ainda não aprendeu o meu nome. Esgueiro-me até à casa de banho e detenho-me diante do espelho. Observo-me demoradamente. Analiso o rosto cansado, sulcado por rugas de expressão que denunciam batalhas invisíveis, antes de o devolver à vigília com água gelada.

Cedi.


Segui uma linha invisível que me conduziu até ti e, sem resistência digna de crónica, cedi. És jovem, irreverente, inconsequente, perigosamente previsível. Mas não o somos todos, quando observados com atenção suficiente? Cada um de nós revela a essência verdadeira, desde que alguém saiba olhar sem se distrair com ornamentos inúteis.


Cedi.


Abri-te a porta deste quarto que não me pertence e entraste já despido da pose majestosa de quem domina territórios, desconfiado, quase alerta, como presa que pressente ter atravessado a toca da predadora. Diverti-me com isso. Sorri-te, lenta, para te encorajar. Dirigiste-te à varanda. A noite era cerrada, o céu salpicado de estrelas vivas e lançavas palavras soltas ao ar, talvez para espantar o nervosismo próprio da tua idade. Ouvi-te falar sem pausa, quase sem respirar, enquanto me despia e me instalava, serena, na minha camisa de noite curta de cetim pérola.


Quando te voltaste, o silêncio tornou-se presença. Aceitaste o copo de Chardonnay que te estendi e engoliste metade de um só trago. Sorriste. Sorri. Largaste o teu copo, retiraste o meu da minha mão e ergueste-me pela cintura para me beijares com sofreguidão, como quem teme que a coragem expire antes do gesto.


Caímos na cama. Contagiei-me com a tua urgência e procurei o cinto das tuas calças enquanto permanecíamos unidos pela língua e pelo fôlego. Livras-te das calças e da t-shirt e em instantes o quarto era um campo rendido de peças de roupa e calçado em desalinho.


Entras em mim sem pedir licença. Cru. Visceral. Rápido. A precipitação de quem deseja consumir uma fantasia antes que ela desperte. És inexperiente. Encontras ritmo depressa demais e sorris com um nervosismo quase terno. Afasto-te. Murmuro-te que a noite possui horas, não minutos, para se cumprir. Respiras fundo. Concentras-te. E regressas.


Então sim. Acertamos o compasso. A minha respiração fragmenta-se a cada investida firme e compreendes finalmente a língua do meu corpo. Alinhas nos movimentos da minha anca enquanto te prendo com as pernas num abraço progressivamente mais apertado. Atinges o clímax comigo, em êxtase, e tombas sobre mim a rir, como se a vitória fosse surpresa.


Ficaste a meu lado durante horas, explorando cada centímetro da minha pele com a ponta dos dedos, interrogando-me com curiosidade infantil, afirmando que não posso pertencer a esta era, que o tempo não ousou tocar-me. Oiço-te divertida e deixo o mito suspenso no ar, intacto.


Adormeci quando a claridade começava a insinuar-se no céu. Fazias-me festas no cabelo dourado em desalinho, com uma delicadeza quase reverente. Perguntei-me então por que razão cedi.


Cedi à crueza.

Cedi à jovialidade.

Cedi à simplicidade desarmante do teu pensamento.

Cedi ao sorriso que me desorganizava a lucidez.


Cedi.

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