… e sou ingénua. Nunca entendo o que se passa, nem tenho a ombridade de perceber ou de acreditar no que me dizem.
Nem sempre foi assim. Houve um tempo em que me julgava atenta, moldada pelo excesso de dor que conheci em mãos e em gestos alheios. Convenci-me de que sabia ler o que não era dito, de que conseguia detectar desvios subtis, observar minúcias, desconstruir personalidades, expor - ainda que em silêncio - as arquitecturas frágeis de egos narcisistas, inseguros, quase ícaros, condenados à própria ilusão de grandeza.
Hoje, nada sei. Desaprendi-me. Há em mim um cansaço antigo, como se tivesse sido deixada para trás por uma geração que tudo nomeia, tudo sente, tudo afirma. Eu já não pertenço a esse lugar de certezas ruidosas.
O meu nome é Alice e nunca fui a primeira escolha de alguém. Nunca. Sou a hipótese adiada, a presença conveniente, o intervalo preenchido quando o aborrecimento se insinua. Sou o entretém de horas mortas, a variação breve numa rotina que não me inclui.
Sou importante, dizem, mas sempre com uma margem invisível. Significo muito, mas apenas dentro de limites que não controlo. Represento tanto, mas nunca o suficiente para ocupar um lugar inteiro.
O meu nome é Alice. Fui a paixão mais intensa, o amor de uma vida sussurrado em momentos certos, a confidente constante, o abrigo disponível. E, ainda assim, nunca bastou. Nunca fui escolhida em definitivo, nunca fui o destino, apenas o desvio.
Fui demasiado carente, demasiado traumatizada, até ciumenta. Fui deprimida, pouco compreensiva no meu papel de segunda escolha.
Disseram-me isso tantas vezes que acabei por aceitar essas palavras como se fossem minhas, como se me tivessem sido inscritas na pele desde sempre. Como se a falha fosse estrutural, inevitável, minha.
O meu nome é Alice e aprendi a duvidar de tudo o que sentia. A pedir desculpa antes de existir. A ajustar o tom, o olhar, o silêncio. A diminuir-me até caber em espaços onde nunca houve verdadeiramente lugar para mim.
Fui demais. Depois, insuficiente. E acreditei nas duas versões, sem perceber que nenhuma delas me continha inteira.
Houve dias em que me perdi de mim. Em que a minha voz me soava estranha, distante, como se viesse de outra mulher qualquer. Dias em que o espelho devolvia um rosto que eu já não sabia habitar.
O amor, disseram-me, e eu acreditei. Mas o amor chegava em fragmentos, contaminado por ausências, por friezas repentinas, por silêncios que pesavam como castigos. Um amor que apertava devagar, sem deixar marcas visíveis, mas com nós cada vez mais difíceis de desatar.
O meu nome é Alice e quase fui sufocada às mãos de quem outrora amei. E ainda assim fiquei. Fiquei mais do que devia, mais do que podia, mais do que alguma vez confessarei sem hesitar. Fiquei inteira onde já estava partida.
O meu nome é Alice e sobrevivi a palavras que não foram ditas, mas que me atravessaram como se tivessem sido gritadas. A promessas suspensas, a gestos ambíguos que confundiam cuidado com controlo.
Até que algo em mim, quase imperceptível, recusou ceder mais um centímetro. Não foi bravura. Não foi redenção. Foi lucidez cansada.
O meu nome é Alice e, pela primeira vez, acreditei em mim. Não em declarações grandiosas, não em certezas absolutas. Acreditei em pequenas rupturas. No desconforto que já não aceitava ignorar. Na dor que deixou de ser justificável. Na ausência de paz que nenhum amor deveria exigir como condição.
Saí. Sem espectáculo, sem força épica, sem a leveza que os finais gostam de prometer. Saí com medo, com dúvidas, com o corpo ainda treinado para ficar. Mas saí.
Hoje, o meu nome é Alice e carrego cicatrizes que não escondo nem explico. Não são troféus, mas também já não são feridas abertas. São mapas silenciosos, lembranças firmes de territórios onde não volto, mesmo quando a memória tenta suavizar o que foi.
Já não sou ingénua. E, no entanto, recuso tornar-me dura. Sou minha. Com excesso, com falhas, com tudo aquilo que me ensinaram a reduzir. E, pela primeira vez, não sou a escolha de ninguém.
Sou a minha.


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