sábado, 1 de agosto de 2026

Rectas finais.

Servem para introspecção, para colocar questões em perspectiva, afinar detalhes, perceber incoerências e compreender que nem tudo o que nos é mostrado corresponde, necessariamente, àquilo que existe, tal como nem tudo o que nos é dito encontra continuidade nos gestos, na atenção ou na forma como alguém escolhe permanecer.

Servem também para, de certa forma, me sentir orgulhosa de mim própria. Por conseguir olhar para lá da imagem e do discurso, por ter aprendido a separar a pessoa da personagem que constrói à sua volta, da narrativa cuidadosamente alimentada para consumo externo e por perceber que essa capacidade de discernimento está hoje mais afinada, mais precisa, mais madura. O mundo não mudou, fui eu que aprendi, finalmente, a observá-lo sem a necessidade de acreditar em tudo o que me querem fazer ver, sem confundir intenção com consistência, proximidade com presença, palavras com profundidade.

Sorrio sempre que me diriges a palavra, já não por ainda me provocares alguma coisa, mas pelo conforto quase irónico de confirmar que a intuição, afinal, não se enganava. Consigo distinguir as tretas da intenção, o discurso da realidade, aquilo que dizes sentir, fazer ou desejar, daquilo que efectivamente és capaz de transformar em actos. E é curioso perceber como tudo acaba invariavelmente no mesmo lugar: boas intenções que nunca chegam a sair das palavras, promessas que morrem antes de conhecerem qualquer gesto, lamentos repetidos até à exaustão, auto-comiseração, vitimismo disfarçado de fragilidade e uma necessidade quase permanente de chamar a atenção, tudo isto envolvido numa insegurança tão profunda que precisa de se mascarar de confiança extrema.

Há pessoas que escutam para responder, não para compreender. Há quem faça perguntas por curiosidade, quem procure conhecer, guardar, relacionar, regressar mais tarde àquilo que ouviu e há quem pergunte apenas para impedir o silêncio, prolongar o contacto e manter aberta uma conversa que nunca chega verdadeiramente a acontecer. A diferença não está na quantidade de palavras trocadas, mas naquilo que permanece depois delas. Umas pessoas fazem-nos sentir escutados e vistos, outras apenas ocupam espaço à nossa volta, criando uma ilusão de proximidade que desaparece mal percebemos que nada do que fomos dizendo encontrou lugar para ficar.

Continuo a viver e a sentir tudo com intensidade e compreendo, talvez melhor do que antes, que nem toda a gente é como eu, nem tem de ser. Nem toda a gente observa da mesma forma, retém os mesmos detalhes, atribui o mesmo valor às pequenas coisas ou transforma interesse em presença. Há quem viva com mais desprendimento, quem se relacione à superfície, quem não sinta necessidade de aprofundar e está tudo certo. Igualmente válido é eu reconhecer que não quero esse tipo de presença na minha vida, não por existir algo de errado nela, mas por me ser insuficiente.

Durante muito tempo achei que compreender os outros implicava aceitar tudo o que eram capazes de oferecer, adaptar expectativas, reduzir necessidades, desculpar ausências disfarçadas de proximidade e convencer-me de que uma intenção, mesmo sem gesto, deveria bastar. Hoje sei que não. Compreender alguém não me obriga a permanecer onde me sinto reduzida, nem a agradecer migalhas emocionais apenas porque foram entregues com palavras bonitas. Posso reconhecer o limite de alguém sem transformar esse limite numa casa para mim.

“A melhor pessoa que conheci (...)”, dizes-me tu. Não é recíproco, porém. E não preciso de te diminuir para justificar a distância, basta-me reconhecer que me falta, em ti, precisamente aquilo que mais valorizo numa relação humana: curiosidade verdadeira, profundidade de pensamento, presença, consistência, capacidade de escutar sem esperar apenas pela vez de responder, vontade de conhecer sem imitar e interesse suficiente para que o outro não seja apenas um espelho onde procuras reconhecer-te.

Mas já nem é sobre aquilo que te falta. É sobre aquilo que a tua presença me retira.

Não me acrescenta. Não me faz evoluir, pensar, aprender ou crescer. Não me desperta curiosidade, não me oferece confronto intelectual, não me devolve profundidade, não me amplia. Pelo contrário, obriga-me a simplificar-me, a repetir-me, a explicar em excesso aquilo que deveria ser compreendido pelo interesse natural de quem diz querer conhecer-me. E tudo o que me obriga a diminuir para caber deixa, mais cedo ou mais tarde, de merecer lugar.

Falta-te tanto, mas tanto, que hoje consigo olhar para trás sem nostalgia, apenas com alívio. Alívio pelo corte que acabaste por provocar, pela distância que se tornou, felizmente, intransponível e pela paz que descobri quando deixei de gastar energia a tentar encontrar coerência onde ela nunca existiu. Há ausências que não deixam um vazio, deixam espaço e talvez tenha sido isso que a tua me ofereceu: espaço para ver com clareza, para respirar sem o peso das tuas contradições e para compreender que nem todas as perdas são, verdadeiramente, perdas.

Eu, por minha vez, aprendi que não quero na minha vida presenças que apenas ocupam, relações que não aprofundam, palavras que não se tornam gesto ou proximidades incapazes de ultrapassar a superfície. Não quero continuar a traduzir-me para quem nunca mostrou verdadeiro interesse em aprender a minha linguagem, nem reduzir a intensidade com que vivo apenas para não perturbar quem escolheu permanecer num lugar onde nada se aprofunda e pouco verdadeiramente permanece.

Apesar de tudo, que consigas ser feliz.

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