terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Becoming Resolution

 


Respiro. Uma vez. Depois outra.


Aproveitei o intervalo das chuvas, o sol brilhante e o frio gélido desta manhã e parti rumo à minha serra, com um saco de pano cheio de nozes. Sorrio na antecipação deste pequeno ritual, o de alimentar os meus esquilos, vermelhos e castanhos. Há variações de cor, como há variações de silêncio. Eu reparo nelas.


Tenho sempre períodos de introspecção depois de arrumar os meus assuntos nas devidas gavetas. Ou de empurrar, sem grande delicadeza, alguns esqueletos de volta para o armário empoeirado do sótão das memórias. É uma espécie de catarse organizada, se isso existir. Um fingimento de ordem interna.


O corpo acompanha. Ou pelo menos tenta. Caminho mais depressa do que devia, mais longe do que planeei. Há um entusiasmo disfarçado de disciplina. Um esforço que não é desportivo, é emocional. Uma purga silenciosa, repetitiva, ritmada pelo impacto dos pés no chão.


Só mais tarde percebo o estrago. As canelas a arder por dentro, como se o osso tivesse memória. O corpo cobra o que a mente decidiu gastar sem autorização.


Chego a um dos fortes de defesa do passado, já envolto e camuflado pela vegetação. Sento-me junto a uma das saídas de pedra para canhões de antigamente, sentindo o frio da manhã atravessar a roupa e gelar os dedos, e o cheiro da terra molhada misturar-se com o aroma seco da pedra antiga. Sorrindo e em silêncio, bato uma das nozes na superfície rugosa, ritmando o som com a respiração. É assim que eles sabem se estou apenas de passagem introspectiva ou se venho ao seu encontro.


Timidamente, surge o mais irrequieto, de pêlo vermelho intenso. Pequeno e traquina, aproxima-se e rouba-me a noz, disparando para o topo da árvore mais próxima. Começa o ritmo tímido, mas constante: uma noz aqui, outra ali, enquanto o vento agita as folhas, os meus músculos relaxam e a mente se esvazia. Sinto a textura da pedra sob as palmas, o frio que ainda persiste na pele, a leve tensão que lentamente se dissolve no gesto repetido. Cada noz oferecida é um pequeno acto de cuidado, de presença, de partilha silenciosa.


E, ainda assim, regresso a casa. Mesmo com a purga, mesmo com a descarga, mesmo com o corpo a queixar-se do esforço. É assim que encontro o ponto de equilíbrio entre a mente que precisa de soltar e o corpo que precisa de estar.


Respiro. Uma vez. Depois outra.

E fico.

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