Estou de regresso ao meu palácio. Caminho pelas ruas da aldeia ainda marcadas pela ressaca da passagem do ano. Restos de folia espalhados pelo chão como confettis cansados, testemunhas de excessos que não me pertencem. O sol espreita tímido por detrás das nuvens, como se pedisse licença para existir. Sempre gostei dessa contenção.
Sigo adiante. O ar fresco da manhã envolve-me e endireita-me por dentro. Foi sempre um bom conselheiro, este frio leve que acorda o corpo sem o ferir. Há decisões que só se tomam assim, a andar, sem plateia, sem urgência.
No cais, reconheço os sinais deixados pelas marés altas da tempestade. A água subiu mais do que devia, reclamou território, deixou marcas irregulares na pedra. Há pessoas que passam por nós do mesmo modo. A igreja observa tudo do cume do monte, imóvel, antiga, com a serenidade de quem já viu o suficiente para saber que nada fica intacto, mesmo aquilo que juramos eterno.
O vento sopra com mais intensidade junto ao rio. Entra-me pelo casaco, atravessa-me. Ainda assim, caminho com uma cadência certa, rápida, quase automática. Conheço este percurso de cor. Poderia fazê-lo de olhos fechados. Talvez já o esteja a fazer.
E voltas a mim. Não inteiro. Nunca inteiro. Vens em fragmentos dispersos de memória. Um sorriso que me apanha desprevenida. Uma gargalhada fora de tempo. Provocações suaves que escondiam fricções inevitáveis entre duas vontades que nunca aprenderam a coincidir.
Não te chamo. Não te afasto. Deixo-te passar por mim como o vento passa pelo rio, sem pedir licença, sem se deter. Aprendi que há presenças que não querem permanência, apenas travessia.
Continuo a andar. O palácio espera-me. Não é feito de pedra nem de grandeza. É feito de silêncio, de gestos pequenos, de um lugar onde posso pousar, sem explicações. Voltar a casa é regressar a mim. Avançar apesar de tudo o que retorna dentro de nós.
E escolher, ainda assim, ficar.


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