Acordei envolta na penumbra da suite, ainda na madrugada recente. Estou longe do meu palácio e, embora a tempestade se espalhe por toda a costa nacional, aqui, tão perto do oceano, torna-se mais ruidosa, mais impressionante. Estico o corpo devagar, ainda a sentir no peito o rasto da tua presença. Ocupaste-me a noite inteira. Deixaste-me um amanhecer acelerado, pulsante, inquieto.
Tenho andado a rodear-te em pensamento, como quem caminha à volta de uma porta sem saber se a deve abrir. Sim? Não? Avanço? Fico?
Queria sinais teus, alguma clareza, qualquer gesto que me orientasse, mas nada me transmites. Em vez disso, pareces castigar-me com a ausência, com o silêncio. Suspiro.
Num impulso, visto o primeiro vestido que encontro, calço as botas, enrolo o cachecol ao pescoço e desço as escadas com a pressa de quem não quer dar tempo ao medo. Rímel e eyeliner bastam. A chave na mão pesa mais do que devia.
À entrada, pego no sobretudo e detenho-me diante do espelho. Há sempre um instante em que a nossa própria imagem parece pedir explicações.
Respiro fundo e envio-te a última mensagem.
“Diz-me apenas se é para ir.”
O tic-tac ensurdecedor do relógio prolonga-se. Cada segundo dilata-se, quase cruel, até que a tua resposta chega.


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