O oceano sempre teve em mim um efeito calmante. Sempre que a tempestade se instala na minha mente, abandono o meu palácio e caminho até ele, deixando que a areia me receba os pés, quente ou fria, pouco importa.
Por vezes levo música comigo. Outras, entrego-me inteira ao turbilhão que me habita. Sento-me no areal e começo a tecer conjunturas: o que é, o que já foi, o que poderia vir a ser. Equaciono decisões, desdobro consequências, e quase sempre chego a um lugar de lucidez que me permite escolher com uma precisão que poucos suspeitam.
As pessoas cansam-me. Julgam-me ingénua, talvez pela urgência com que sinto, pela forma quase voraz com que me entrego ao instante. Mas não o sou. Nunca fui. Vejo-te com uma clareza que já não me dói: reconheço a forma como tentas manipular com palavras que outrora me encantavam, a subtileza com que ensaias a indiferença para me desestabilizar, o modo como insinuas uma paixão que já não habita em lado nenhum.
Cansas-me. E isso, agora, é tudo o que preciso de saber.
O meu foco sou eu. E nesse lugar, onde finalmente me encontro sem ruído, vejo-te como és: cansado, gasto, quase ausente de ti próprio. Que poderia eu ainda desejar de ti? Talvez apenas isto, simples e distante: que consigas ser feliz com o que tens.
Já me tiveste. E eu não volto atrás.
Nunca.


0 comentários:
Enviar um comentário