sábado, 25 de abril de 2026

Uncare

 


Nunca foi cuidado. Nem sequer um gesto imperfeito dele. Foi deslumbramento imediato, superficial, perigosamente confundido com profundidade. Um fascínio rápido, teu, daqueles que não assentam, que não criam raiz e que, por isso mesmo, precisaste de transformar em outra coisa para não desaparecer sem deixar rasto.


Transformaste-o em controlo. Não num controlo ruidoso, evidente, fácil de nomear. Mas num controlo minucioso, persistente, quase invisível na forma, absolutamente exaustivo na presença. Precisavas de saber. Sempre. Não por interesse genuíno, mas por incapacidade de tolerar o que te escapa. O que eu faço, com quem falo, o que me faz rir, tudo se tornou matéria de observação para ti.


E quando não sabias, avançavas. Aproximaste-te de pessoas que nunca te despertaram qualquer afinidade, tentaste construir ligações artificiais, sustentar conversas vazias com uma dedicação que não era emocional, era funcional. Não havia ali curiosidade humana. Havia estratégia. As pessoas não são pessoas, tornaram-se acessos. Caminhos laterais para chegares até mim sem me atravessares directamente.


Os teus ciúmes nunca foram confessionais. São estruturais. Estiveram em tudo, no subtexto, naquela vigilância constante que nunca precisou de se anunciar para existir. Houve sempre um olhar teu. Sempre atento. Sempre à procura de um desvio, de uma falha, de algo que validasse uma inquietação tua, nunca minha.


E eu… deixei de ser leve contigo. O meu riso começou a carregar um peso estranho, como se precisasse de caber dentro de ti para ser aceitável. Como se existir, fora do teu alcance, fosse automaticamente excessivo.


Depois, as tuas mentiras. Não foram lapsos. Foram construções. Calmas, deliberadas, sustentadas por uma convicção silenciosa de que eu não veria, não perceberia, não ligaria os pontos. Moveste-te nessa certeza, a de que a tua encenação era suficiente.


Mas eu vejo. Vejo sempre. Vejo tudo. Mesmo quando preferia não ver.


E quando tudo se organiza, quando os fragmentos deixam de ser dispersos e passam a fazer sentido, o que resta é simples na sua dureza: nunca houve cuidado. Houve insegurança. Densa. Persistente. Incapaz de existir sem se apoiar em mim e por isso transformada numa necessidade constante de me delimitar, de me conter, de me reduzir ao que conseguias observar sem risco.


Tu não querias proximidade. Querias previsibilidade. Não querias partilha. Querias controlo.


E nesse processo, silencioso, contínuo, quiseste isolar-me, reduzir-me. Até ao ponto em que permanecer implicava deixar de me reconhecer.


Não foi perda.

Foi lucidez.


E essa, ao contrário de ti, não mente.

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