Hoje é um desses dias perigosos em que te reconheço inteiro, não apenas na soma crua dos teus defeitos mas também na arquitectura silenciosa das tuas virtudes, como se a lucidez se tornasse um risco e não uma conquista, como se compreender-te fosse já ceder um pouco mais do que devia. Há momentos em que quase deixo que a química, essa força cega e indisciplinada, se sobreponha aos vestígios ainda vivos do que doeu, dissolvendo memórias ásperas no território quente da pele, onde o corpo reage antes de qualquer juízo, onde tudo se torna perigosamente simples.
Por que foste por esse caminho? Odeio-te. Mas desejo-te. No fundo nunca abandonei nenhuma dessas verdades. Nem o ódio nem o desejo. Habitamos esta tensão antiga, esta convivência exausta entre extremos que não se anulam apenas se alimentam, como se fosse esse o nosso idioma mais honesto.
Quiseste ocupar o centro de narrativas que nunca te pertenceram, assumindo, com uma convicção quase arrogante, o papel de quem dirige, de quem molda, de quem decide o rumo de uma história alheia, como se a minha vida fosse um argumento disponível à tua interpretação. Mas não é. Nunca foi.
A minha vida não se encena sob a tua direcção. Sou eu que lhe dou forma, que escrevo cada linha com a consciência, por vezes amarga, de tudo o que escolho sentir e viver, com todas as nuances, os excessos, as falhas e as vertigens que aceito como minhas, sem concessões, sem delegações.
Tiveste um lugar central, é inegável, um papel que durante muito tempo pareceu incontornável mas foste perdendo densidade, presença, substância, até restar apenas a inevitabilidade da tua saída, como uma personagem que se dissolve na própria irrelevância, até desaparecer por completo do enredo.
Estás feliz? Valeu a pena?
Hoje é um desses dias perigosos em que te conheço por inteiro, com uma clareza que quase me desarma, porque ver-te assim, sem distorções, sem ilusões, é também lembrar-me de tudo o que, apesar de tudo, ainda em mim responde a ti.


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