Dói.
Uma dor que não dilacera de imediato, mas permanece, lenta, insistente, a macerar corpo e alma como humidade entranhada nas paredes de uma casa antiga.
Dói.
Aquele aperto no peito que corta o ar antes de chegar aos pulmões. A perda abrupta da pose, da força, que me desarma até restar apenas matéria cansada. O colapso silencioso que acontece por dentro enquanto, por fora, o mundo continua a exigir normalidade. A dor que não permite respirar fundo. A dor que impede existir com leveza.
Dói.
Obriga-me a recorrer ao SOS. Àquele comprimido pequeno e brutalmente eficaz que seca lágrimas, amortece emoções e me despeja num piloto automático onde sobreviver passa a ser o único objectivo plausível. Mais um dia. Mais uma semana. Mais um mês. Como quem vai empilhando tempo sobre ruínas, fingindo não ouvir o estalar das estruturas. Como quem arrasta o próprio corpo através do tempo sem realmente estar presente nele.
E o pior talvez seja o cansaço. Não o cansaço simples do corpo, mas este esgotamento viscoso, existencial, que corrói identidade e reflexo. Já não sei quem sou. Já não me reconheço na minha própria pele, como se habitasse um rosto emprestado, uma versão deformada de qualquer coisa que outrora fui.
Dói.
Quero desistir. De tudo. Não num gesto dramático, não. Quero desistir por desgaste. Por saturação. Porque chega um ponto em que carregar o peso de existir deixa de parecer coragem e começa apenas a parecer condenação.
Dói.


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