domingo, 10 de maio de 2026

Tempo.

 


Não sei bem em que momento isto deixou de ser leve.

Talvez não tenha sido um momento. Talvez tenha sido uma acumulação pequena de coisas que, isoladas, não pareciam nada, mas juntas começaram a ocupar demasiado espaço entre nós.

Eu gostava da forma despreocupada como nos ríamos. Da forma como as conversas aconteciam sem esforço. Daquela naturalidade que não precisa de ser explicada nem justificada. E é isso que me faz mais falta do que admito facilmente. 

Mas, ao mesmo tempo, comecei a sentir algo diferente a crescer por baixo disso. Uma espécie de atenção constante sobre mim. Sobre com quem eu falo. Sobre como eu reajo. Sobre onde eu estou emocionalmente sem ti. E isso foi mudando tudo, mesmo sem grande ruído.

Houve momentos em que senti que deixei de ser apenas eu numa conversa e passei a ser alguém observada dentro dela. Interpretada. Lida por camadas que não me pertenciam. E isso cansa-me mais do que consigo explicar de forma simples.

Eu percebo (e reconheço) a insegurança. Não a ignoro. Não a desvalorizo. Consigo ver o que está por trás de certas reacções, mesmo quando essas reacções não são justas nem tranquilas. Mas compreender não me obriga a ficar dentro de dinâmicas que me fazem perder a leveza. E eu senti isso a acontecer.

Senti a necessidade de começar a medir coisas que antes eram espontâneas. De evitar pequenos movimentos. De pensar duas vezes antes de rir ou de me aproximar de outras pessoas. E quando chego a esse ponto, já não estou bem. Não saí por falta de afecto. Nem por falta de apreciação. Saí porque comecei a sentir-me encurralada numa energia que não me faz bem. E porque já conheço o caminho que isso abre em mim quando fico demasiado tempo nesse lugar.

E é também por isso que não consigo voltar a contactar-te. Não porque te odeie. Não porque não sinta saudades de partes do que fomos. Mas porque sei que, para mim, voltar a abrir esse canal sem que exista uma mudança real da tua parte na forma como lidas com estas dinâmicas me faria regressar ao mesmo sítio onde tive de me afastar.

Ainda assim, não deixo de ter saudades da parte boa. Daquilo que era simples. Daquilo que não pesava. E é talvez essa a parte mais difícil de aceitar: que as duas coisas podem coexistir. A leveza que existiu e a pressão que começou a existir depois.

Não preciso de te transformar num vilão para justificar o meu afastamento. Nem preciso de me transformar numa pessoa fria para o manter. Apenas precisei de sair quando comecei a perder a minha própria tranquilidade. E isto não é uma punição para ti. É um limite muito necessário para mim.


Se um dia tiveres a maturidade de olhar para estas palavras sem te defenderes delas, sem as virares contra mim ou contra ti, mas apenas para as compreenderes, então talvez possas decidir se ainda faz sentido contactares-me e existirmos num espaço mais leve, mais respeitador e mais calmo. Até lá, eu fico neste lado do silêncio.


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