Disseram-me, há uns tempos, que sou uma espécie de pára-raios de malucos.
O curioso é que os “malucos”, os assumidos, os diagnosticados, os que carregam a sua estranheza à vista de todos, raramente me assustam. Talvez porque não escondam nada, talvez porque não me obriguem ao exercício exaustivo de tentar perceber o que realmente são. Há uma honestidade estranha em quem admite os próprios fantasmas.
Os outros cansam-me mais. Os que juram normalidade enquanto distribuem caos, os que pedem ajuda sem a quererem, os que exigem presença sem oferecerem reciprocidade, os que transformam cada conversa numa teia onde acabo inevitavelmente presa entre a compaixão e a vontade de fugir.
Porque fugir seria simples, não seria? Bastaria riscar nomes, apagar contactos, fechar portas. Mas existe sempre um “e se”. E se ela piorar? E se precisar de alguém? E se eu me afastar precisamente no momento errado?
É um pensamento absurdo, eu sei. Uma espécie de arrogância disfarçada de responsabilidade, como se o equilíbrio emocional de alguém pudesse realmente depender da permanência de uma única pessoa, como se eu tivesse esse poder. Mas o coração raramente respeita aquilo que a razão já resolveu e, por isso, fico mais tempo do que devia, escuto mais do que consigo suportar e carrego pesos que nunca me pertenceram.
Entretanto, há dias como hoje. Dias em que não acontece nada de particularmente grave e, ainda assim, tudo parece pesado. Dias em que tenho tempo para mim e não sei o que fazer com ele. Horas inteiras que escorrem pelo sofá enquanto a música preenche os espaços onde os pensamentos se recusam a organizar-se.
Não estou exactamente triste. Não estou exactamente cansada. Estou suspensa, como uma página aberta a meio de uma frase que não encontra o resto da tinta.
Escrevo porque escrever costuma ajudar. Sempre ajudou. Mas até as palavras parecem andar perdidas pelos corredores do meu sótão mental, tropeçando em caixas antigas, levantando pó, abrindo gavetas que não procuravam. Procuro o fio do novelo e tenho a sensação de que ele está aqui algures. Só ainda não descobri se estou a tentar desenrolá-lo ou voltar a enrolá-lo.


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