quarta-feira, 10 de junho de 2026

Ruínas

 


Sou do tempo de saltar ao elástico, desenhar e jogar aos polícias e ladrões na estrada, gritar “ocarrólaaaaa!”, criar rivalidades com as crianças da rua de baixo, mas sanar todas as diferenças nas fogueiras de São João.


Sou do tempo em que, a caminho da escola, podia cruzar-me, eventualmente, com um qualquer velho pervertido, olhá-lo enojada e sair a correr feita louca, guiada unicamente pelo instinto. Sou do tempo de paixões avassaladoras e sofrimentos atrozes, talvez alimentados por páginas e páginas de um número infindável de livros lidos. Do tempo em que era a mais nova e, por isso, protegida. Pelo irmão mais velho. Pela prima. Pela namorada do outro irmão. E por isso saía, ainda pré-adolescente, à noite, muitas vezes até de madrugada, enquanto os mais velhos bebiam copos e conversavam e eu passava horas entretida na máquina de Tetris.


Sou do tempo de amigos se juntarem em grupo, comprarem cervejas de litro e sacos de gelo para encher uma banheira inteira, enquanto a música tocava ao fundo. Um pegava na viola, outro cantava, uma ria de cerveja na mão, outra trocava olhares cúmplices com o namorado momentos antes de seguirem, a sós, para outra divisão daquele palácio, outrora já antigo, agora em ruínas.


Hoje sinto-me em ruínas também.


Sim, no Dia de Portugal sinto-me em ruínas. Sinto-me num mundo em ruínas. De valores. De ordem. De discernimento. Num mundo em que a violência gratuita escala sob os pretextos da mais vil futilidade. Sinto-me angustiada, perdida numa era em que não me reconheço. Num mundo sem cor, nude, porque o amarelo enjoa e o vermelho pode ofender, porque o roxo é de gente pouco séria e o laranja é apenas uma fruta.


Estou num mundo onde se decapitam pessoas e se sorri para a câmara que grava, imóvel. Onde se esfaqueiam pessoas e se declaram assassinos inimputáveis uma e outra vez. Num mundo cada vez mais populoso e com cada vez menos direitos.


Talvez por isso me mantenha no palácio. Talvez por isso saia apenas para a floresta. Talvez por isso mantenha junto de mim apenas um círculo restrito e me canse a restante interacção humana, tão cheia de achismos e julgamentos baratos de vão de escada. Talvez por isso os aldeões apenas vislumbrem o meu vulto numa ou noutra janela, ou quando me esquivo para o jardim, mantendo-me no meu mundo imaculado.


Posso voltar para o século passado, por favor?


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