Há pessoas que chegam como tempestades ensaiadas, com aquela luz enganadora que faz acreditar que finalmente encontramos alguém que nos lê por dentro. Tu eras isso: um clarão aparente, inteligente, ruidoso na medida que seduzia, frágil na medida que mascaravas. Um daqueles seres que parecem segurar o mundo com uma mão até o mundo lhes pedir que o agarrem com verdade.
A afinidade era quase absurda, uma ligação que prometia incêndios e estradas longas. Prometia tudo. Até chegar a hora de cumprir. Foi aí que te desmontaste.
Bastou um contacto mais próximo, um toque de realidade, e o encanto dissipou-se como perfume barato na estação estival. Não houve lentidão, nem coerência. Houve ruptura. Seca. Brutal. Uma viragem tão abrupta que quase fez vento. Primeiro surgiram justificações polidas, frágeis como papel molhado. Depois… o teu teatro, de quem não suporta sustentar as próprias palavras.
Há desaparecimentos silenciosos, dignos. E há o outro tipo. O que precisa de palco, luz e plateia para maquilhar a fuga. Tu escolheste esse. Converteste a retirada numa performance inquieta, feita de gestos estudados e aproximações meticulosas a quem sabes que para mim é intocável. Achavas mesmo que eu não perceberia? Movimentos frios, quase coreográficos, revelando não leveza, mas pânico mascarado. Conversas exibidas como medalhas ocas, presenças lançadas como areia ao vento, tudo milimetricamente calculado para diluir a culpa e ocultar a incoerência. Uma encenação pobre, mas funcional para quem precisa de espectáculo para suportar a própria incapacidade de ficar.
E eu vi tudo. Cada desvio. Cada oscilação. Cada tentativa infantil de provar que estavas “bem”, “ocupado”, “acima”. Muitos acreditam que manipular é arte; em ti era apenas medo com verniz brilhante. Estalado.
É extraordinário como aquilo que parecia profundo se revela raso com um único feixe de verdade. Como alguém que parecia inteiro afinal não era mais do que sombra projectada em parede fina. Como quem prometeu intensidade afinal não suportou o calor que encontrou. Almas gémeas, disseste-me outrora. Patético.
E sim, há vestígios. Aquilo que eliminavas quase no imediato, está aqui, guardado no meu armário mais antigo, entre papéis sem cheiro e memórias que já não ardem. Não são armas. São testemunhos. Fragmentos de um capítulo que não nego porque me ensinou mais do que suportarias saber. E se algum dia tentares redesenhar esta estória para teu proveito, esses fragmentos sabem erguer-se do pó. A verdade tem uma obstinação notável.
Não te odeio. Nem te desejo. Não te quero perto nem longe. Tornaste-te irrelevante quando me mostraste que só sabes viver em modo rascunho. Apenas te vejo como sempre foste: alguém que se aproximou do fogo, achou bonito, mas não teve mãos para o segurar.
E, no fundo, foi isso que me salvou.
Porque não fui eu que perdi alguém. Foste tu que encontraste alguém que te viu inteiro… e não suportaste o reflexo.
Não escrevo isto para ferir. Escrevo para lembrar-te que, comigo, nada volta atrás.
Nunca.


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