Luto e saudade.
Não como fins, mas como movimentos lentos do pensamento quando, sem aviso, me atravessas.
Pensei em escrever-te. Não por urgência. Por reconhecimento. Ainda assim, contive o gesto. Há silêncios que não são ausência, são intervalo.
Do que foi intenso ao que se tornou atento, do descompasso à escuta, houve um percurso que não se desfez. Apenas mudou de forma. E talvez por isso permaneças. Não como falta, mas como linha ténue que nunca se apaga por completo.
Em certos lugares, a tua voz regressa sem esforço, quase intacta. No quotidiano, a memória assenta com uma delicadeza pesada. Não lhe chamo luto, nem lhe nego a saudade. É outra coisa. Um estado intermédio, onde nada está fechado.
Pergunto-me, às vezes, se ainda me encontras nesse espaço indefinido entre o que se viveu e o que não chegou a acontecer. Se continuo legível, mesmo quando não escrevo.
Talvez sim.
Talvez ainda.
Luto e saudade.


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