Fotografei uma fortaleza hoje.
Sempre que me perco por entre arquitectura antiga, muralhas gastas pelo tempo e lugares onde tantas vidas deixaram a sua passagem, assalta-me aquela sensação estranha de não pertencer verdadeiramente a esta época. Não me reconheço nas posturas, nos costumes, na forma como tudo parece acontecer com uma urgência que me é estranha.
Tenho uma alma antiga. De papel escurecido pelas borras de café, de penas e tintas para escrever sob a luz trémula das velas. De cera derretida e lacre a selar palavras que precisavam de atravessar distâncias para chegar a alguém.
Vivo os meus dias cá e lá. Cá, na realidade do quotidiano, entre rotinas, afazeres e obrigações. Lá, nesse lugar que só existe dentro da minha mente, onde me perco a imaginar cenários, encontros e emoções, dando vida ao que nunca aconteceu e, por vezes, sentindo como real aquilo que existiu apenas dentro de mim.
De vez em quando, abro ali a tua pequena janela digital. Procuro nela algum sentido para o que foi, ou para aquilo que poderia ter sido, mas nunca para o que poderá vir a ser.
Fiz por perder esse expresso movido a carvão. Não quero mais expectativas alimentadas por palavras soltas, nem intenções que, por mais sinceras que sejam, continuam a ser vontades por concretizar. Há coisas que podem ser desejadas durante muito tempo, mas que só passam a existir quando alguém decide, finalmente, dar-lhes forma.
Releio as tuas palavras e sinto-lhes a sinceridade. Talvez seja precisamente por isso que as leio com tanta atenção. Ainda assim, sei, naquele lugar profundo onde não consigo mentir a mim própria, que senti a nossa conexão. E sei também que não poderia ter sido apenas eu a senti-la. Não faria sentido manteres este contacto durante tanto tempo apenas por simpatia ou por uma qualquer cordialidade desprovida de vontade. Há presenças que não se sustentam apenas por educação, sobretudo quando poderiam simplesmente deixar de existir.
Quem sabe se um dia nos encontramos e conversamos sobre aquilo que poderia ter sido e não foi? Sem ressentimento, sem acusações, sem a necessidade de procurar culpados para o que ficou por viver. Como te disse, sou fácil de agradar; basta-me ver-te, basta-me conversar contigo, e há qualquer coisa em mim que se ilumina perante a tua presença, como se o tempo, por breves instantes, se esquecesse de tudo aquilo que entretanto aconteceu.
Até lá, continuarei a viver os meus dias nesta estranha dualidade, entre uma dose necessária de realismo e pequenas fugas de criatividade que me salvam da monotonia. Continuarei a ganhar rugas de expressão e a sorrir perante coisas pequenas que, para mim, nunca são realmente pequenas, como o fumo da minha caneca de café a subir lentamente no meu jardim, em pleno Inverno, enquanto os raios de sol atravessam o frio e me beijam a pele com uma timidez quase terna.
Ou como agora, nesta praia onde parei para ouvir o mar, encontrar, por alguns instantes, o silêncio que a rotina tantas vezes me rouba e sentir o papel a querer fugir com a brisa, enquanto tento segurá-lo numa mão e escrever estas linhas na outra.
Hoje, fico por aqui.
A ver o astro-rei desaparecer atrás da serra, devagar, deixando no céu os últimos vestígios de luz antes de entregar a noite à lua quase cheia. Sinto o frio da brisa marítima, mas não me demovo; puxo as mangas do casaco sobre as mãos e enfio o gorro, enquanto algumas madeixas teimosas insistem em escapar à clausura.
Hoje, fico. Quem sabe apareces?
Quero tanto ver-te.


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